quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

iPod, Kindle e Nespresso

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O que têm em comum o iPod (e o iPhone), o Kindle e as máquinas de café Nespresso? Mais do que à primeira vista parece.
Quando durante a recente CES2010 surgiram inúmeros leitores de livros electrónicos não faltou quem apontasse a vários desses dispositivos virtudes que faltariam ao reader da Amazon. O que significaria que este teria os dias contados.
Percebo a lógica. Eu próprio o fiz no passado quando identifiquei vários leitores de áudio portáteis claramente superiores a qualquer iPod – melhores e mais baratos.
Mas isso é esquecer a razão pela qual o iPod se tornou no leitor de música dominante mesmo surgindo muitos anos depois dos primeiros leitores do género (e o mesmo se pode dizer sobre o iPhone e a forma como se impôs no que parecia ser um mercado saturado).
E a razão é que nenhum destes produtos – o Kindle, os dispositivos da Apple e, como veremos adiante, até as máquinas Nespresso – é… um simples produto. Todos eles resultaram de uma análise claramente bem feita dos principais problemas com os seus congéneres pioneiros.
Por isso, ao serem colocados no mercado, cada um destes produtos mostrou ser muito mais do que apenas o hardware. Todos eles, sem excepção, são na verdade excelentes pacotes de produto+serviço. É nesse ponto que todos eles venceram – e é a incapacidade da concorrência em fazer o mesmo que continua a mantê-los no topo.
Com o iPod, a Apple viu que havia limitações de hardware (especialmente no que diz respeito à capacidade) mas que o principal problema consistia na própria utilização dos leitores portáteis, nomeadamente na forma de adquirir e gerir a música. Daí que o iPod é não apenas pelo hardware (que, entretanto, foi igualado ou até suplantado) mas pela forma como funciona juntamente com o software iTunes e com a loja online do mesmo nome.
Aquilo que muitos censuram no iPod, que é a sua inflexibilidade nalguns aspectos, é exactamente o que constitui a sua força. A maioria dos utilizadores não quer flexibilidade, quer facilidade de utilização.
Incrivelmente, não só ninguém conseguiu emular o feito da Apple, como deixaram que a empresa conseguisse repetir o conceito, de forma retumbante, noutro mercado ainda mais maduro e com competidores mais formidáveis, que é o dos telemóveis.
Quando surgiu, o iPhone era claramente inferior, em termos de hardware e até de funcionalidades, do que muitos outros aparelhos similares e, em muitos casos, até significativamente mais baratos. Contudo, a facilidade de utilização do produto, o seu design e aposta no ecrã táctil, convenceram facilmente utilizadores que, de forma geral, estão tanto ou mais interessados no estilo do que nas funcionalidades do seu telemóvel.
Mas, uma vez mais, a piéce de resistance não foi o hardware nem sequer o software – foi a App Store. A loja de aplicações para iPhone foi e é um sucesso impressionante. Tudo o que o iPhone não era capaz de fazer out of the box pode passar a fazer – desde que se compre a aplicação certa. O que não é difícil, quando existem muitos milhares à disposição. E, uma vez mais, à disposição fácil.
Como é que a concorrência não só não viu isto a chegar como passado todo este tempo ainda não apresentou nada competitivo é algo que se me escapa.

O caso Kindle

A Amazon foi das poucas empresas que percebeu perfeitamente a lição da Apple ao apresentar o Kindle. O produto não é o primeiro nem será o último leitor de livros electrónicos (ebooks). A própria Microsoft possui uma tecnologia de ebooks há anos – mas nunca pareceu saber muito bem o que lhe fazer (embora exista até em versão para Windows Mobile).
O Kindle não é tecnicamente nada de especial. E é bom lembrar que qualquer uma das actuais versões nem sequer tem um ecrã a cores. O que faz do Kindle uma máquina interessante não é o hardware – é o serviço.
No caso de não ter ainda percebido, a Amazon só vende o Kindle numa determinada região depois de ter encontrado parceiros para que a máquina possa ser usada com ligações sem fios via GSM ou até 3G (é o que acontece em Portugal) sem custos adicionais para o utilizador.
Está no comboio e apetece-lhe ler um determinado livro? Só tem de aceder à loja online da Amazon a partir do próprio Kindle, pagar o livro (a um preço inferior ao que pagaria em papel) com cartão de crédito e descarregá-lo para o seu leitor, em segundos, sem custos adicionais. O mesmo pode acontecer com periódicos e o Kindle tem acesso gratuito à Wikipedia.
Não há taxas adicionais, nem assinatura, nem pagamento de tráfego. O produto não é o hardware, mas sim o pacote hardware+serviço.
Não admira por isso que a Amazon não esteja nada preocupada com o aparecimento (inevitável) de outros ebook readers. Mas que esteja muito preocupada com o facto de a Apple se preparar para lançar um dispositivo (que à data em que escrevo isto, parece que se chamará iSlate, ou seja, uma espécie de “ardósia digital”), com ecrã a cores e cuja utilização poderá bem ser a de um concorrente do Kindle – entre outras coisas. Update: chama-se iPad e foi lançado no dia 27 de Fevereiro.
E isto, vindo de uma empresa que tem atrás de si o iPod e o iPhone. Se eu fosse o Jeff Bezos estaria muito preocupado.

E o Nespresso?

E o Nespresso?, perguntarão agora. O que tem a ver com isto? Tudo. A Nestlé fez com as máquinas de café o mesmo que a Apple com o iPhone: olhou para o mercado e viu como podia melhorar algo que as pessoas já conheciam e usavam.
As máquinas de café são chatas de usar, sujam e sujam-se, e normalmente só funcionam bem como um determinado tipo de café e de moagem – bem, pelo menos é o que acontece com a minha!
O Nespresso é mais do que uma máquina. É, como a Nestlé gosta de dizer, “um sistema”. O sistema é a máquina (o hardware) e o café (o software).
A máquina foi tornada elegante e fácil de usar – e não se suja a si nem ao utilizador. Quanto ao café, foi diversificado. Existe mais fraco e mais forte, aromatizado, sem cafeína… E não se vai ao supermercado comprá-lo – pode ser encomendado (surpresa, surpresa) via Internet, chegando a nossa casa – ou ao escritório – em caixas de dezenas de cápsulas coloridas.
Sim, cada café fica por mais de 30 cêntimos (!), mas ninguém parece importar-se. Afinal, é o preço a pagar pela facilidade de utilização.
Mas também por uma outra coisa, talvez (ainda) mais importante: a sensação de se possuir algo único e de se fazer parte de um clube restrito – o das outras pessoas inteligentes o suficiente para verem a luz e usarem um produto igual ao nosso.
E isso é algo que não tem preço.

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