segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Negócio arriscado *


Não é preciso que artigos de opinião como este proclamem que o Windows 8 é a aposta mais arriscada de sempre da Microsoft. Foi o próprio Steve Ballmer que o disse, publicamente, em Outubro do ano passado.


Por isso resta-me apenas confirmar: é mesmo. A passagem do DOS para o Windows foi a passagem de uma "não interface" para uma interface gráfica; a passagem do Windows 3.x para o Windows 95 foi a evolução de uma má interface gráfica para um paradigma que já todos conheciam desde 1984, com o Macintosh. E tudo o que se passou com o Windows desde então tem sido apenas mais do mesmo - o Windows 7, com o qual a Microsoft se reconciliou com quem achava que o Vista era a pior coisa à face da Terra, não é mais do que um Windows 95 melhorado.
Claro que estou a falar apenas da interface, porque enquanto o Windows 95 tinha as suas raízes no MS-DOS, desde o Windows XP que o código do sistema operativo mais usado em todo o mundo provém do Windows NT, criado de raiz pela Microsoft em 1993.


Acontece que, para a esmagadora maioria das pessoas, a interface é o sistema operativo. É através dela que temos acesso às funcionalidades do computador, é com ela que interagimos com a máquina, com a qual introduzimos e recebemos informação. Para o comum dos humanos é irrelevante se o que está sob o desktop do Windows 7 é o NT ou o DOS, da mesma forma que a maioria dos utilizadores de Macintosh ignora que a interface do MacOS X repousa sobre código de Unix.
A importância da interface


É sob o ponto de vista da interface que me parece que as declarações de Steve Ballmer são de facto certeiras. O Windows 8 é, realmente, a aposta mais arriscada de sempre da Microsoft. Não só porque irá expor os utilizadores a um paradigma completamente diverso daquele a que estão habituados, mas porque o mundo de 2012 (data prevista para o lançamento da próxima versão do Windows) é muito diferente daquele que tínhamos em 1995.
Hoje, a massa crítica é imensa, estimando-se que desde 2008 tenha sido ultrapassada a marca dos mil milhões de utilizadores de Windows em todo o mundo. Ora quando estamos a falar de um número tão astronomicamente grande de utilizadores, é evidente que o que quer que façamos irá aborrecer muita gente.


Mas vamos por partes. A versão do Windows 8 que a Microsoft mostrou ao mundo no dia 13 de Setembro é destinada sobretudo aos programadores, para que estes possam começar a desenvolver aplicações de forma a que no final de 2012 o Windows 8 possa ter já disponível um razoável catálogo de software criado de raiz para dele tirar partido.


Mas o rótulo de "developer preview" deste Windows 8 significa também que está bastante longe da sua forma final. Quanto longe? Para colocarmos as coisas em perspectiva, a versão do Windows 7 divulgada no mesmo ponto do tempo no calendário de desenvolvimento, não tinha sequer a nova barra de tarefas e o "modo XP" só surgiu mesmo como surpresa de última hora na versão final. Para todos os efeitos, esta versão nem "beta" é.
Até ao Windows 7, a Microsoft desenvolvia versões beta do Windows que estavam praticamente completas em termos de funcionalidade mas tinham imensos bugs que iam sendo "limados" ao longo do processo de desenvolvimento. Com o Windows 7, a gestão de desenvolvimento foi alterada o critério passou a ser o de incluir nas versões que iam saindo apenas funcionalidades que estavam prontas; o que se encontrava ainda "preso por arames" era deixado de fora até à próxima iteracção.


Isso significa que o Windows 8 que temos agora, apesar de estar ainda longe do fim é relativamente estável mas não está ainda completo em termos de funcionalidades. Dito isto, há muita coisa que está pronta, e é essa que me levanta pessoalmente muitas questões.
Um novo paradigma

A nova interface do Windows 8, que parte de uma linguagem de design gráfico apelidada internamente de "Metro", não é apenas um refinamento do que conhecemos desde 1995 - é algo totalmente novo. Só os (poucos…) utilizadores de smartphones com Windows Phone 7 se sentirão mais à vontade. Para os outros, especialmente os que instalarem o Windows 8 num PC sem ecrã táctil, tudo parecerá estranho. Estranho e… pouco funcional.
Ao contrário do que se chegou a pensar, nada indica que o Windows 8 terá duas interfaces. Tudo parece apontar para que a interface optimizada para ecrãs tácteis ("touch first interface", como a Microsoft gosta de lhe chamar) seja a interface predefinida em todos os tipos de equipamentos.


É verdade que continuamos a poder encontrar um desktop clássico, mas como o botão Iniciar tem o mesmo efeito em qualquer das interfaces, iremos descobrir rapidamente que nada funciona como o esperado. Para mim, a falta do acesso directo aos programas e respectivos grupos de aplicações é o elemento mais estranho. E o pior é que não creio que seja uma questão de hábito até aprendermos a lidar com a nova interface.
A Microsoft diz que a interface do Windows 8 é tão fácil de usar numa interface táctil como num contexto de teclado+rato, mas a minha experiência preliminar com o novo Windows ainda está por demonstrar a validade dessa afirmação.


O melhor e o pior
Uso o Windows desde a versão 1.0. Fui beta tester de todas as versões desde o Windows 3, estive em Seattle na apresentação oficial do Windows 95 e escrevi vários livros sobre o Windows, incluindo as versões XP, Vista e 7. Reconheço que a Microsoft tinha de fazer algo para manter o Windows relevante durante os próximos anos, num mundo de rápidas mudanças tecnológicas. Mas confesso que nada me preparava para o Windows 8.


É tudo mau? Nem por sombras. Com o Windows 8, a Microsoft conseguiu já ultrapassar obstáculos que eu julgava intransponíveis, como é o caso de criar um sistema operativo que corre da mesma forma em sistemas Intel x86 e em novos dispositivos baseados em processadores ARM de baixo consumo, usados em smartphones e tablets - e tudo isto com uma interface de programação que permite que as (novas) aplicações corram da mesma forma em qualquer uma das versões.
Por outro lado, pôr lado-a-lado o Windows 8 e um tablet com iOS ou Android é perceber que o primeiro representa o futuro e os outros estão ainda a olhar para o passado. O Windows 8 parece uma entidade viva enquanto os outros dois nos mostram uma interface que é pouco mais do que uma matriz de ícones estáticos.


O Windows 8 é mais rápido e requer menos hardware do que versões anteriores e, mesmo sob esta forma ainda incipiente, é rápido e fluido, mesmo em máquinas antigas optimizadas para o Windows 7. E a versão igualmente "preview" do Internet Explorer 10 é rápida e tem uma nova interface Metro muito elegante e prática.
Finalmente, é justo também dizer que a interface Metro do Windows 8 é um prodígio conceptual no sentido de se adaptar igualmente bem a pequenos ecrãs de smartphone, a tablets um pouco maiores e terminando em gigantescos ecrãs de televisão (via Xbox, que vai ser actualizada ainda este ano para uma interface "Metro").


Ou seja, a nível técnico, nada tenho a apontar ao que já se pode experimentar desta nova aposta da Microsoft. A minha dúvida está na interface e em saber o que ainda irá acontecer até à versão final, sobretudo para quem usa o PC de forma tradicional, com teclado e rato.
Porque quando estão em causa os hábitos de trabalho de mil milhões de pessoas, a margem para algo correr mal é muito, muito grande. Até que ponto? Digamos que aborrecer 10% dos utilizadores de Windows é igual a deixar descontente a totalidade dos utilizadores do segundo sistema operativo mais usado.


O que, dito desta forma, até parece ser muita gente.


* Texto publicado originalmente no Tek.Sapo.

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