quarta-feira, 4 de maio de 2016

Taxis vs Uber: Só os paranóicos sobrevivem *




No final dos anos 90, o recentemente falecido CEO da Intel, Andy Grove, escreveu um livro chamado “Only the Paranoid Survive”.

O livro foi construído a partir dos ensinamentos que Grove retirou da dura transição da Intel de fabricante de memórias para fabricante de microprocessadores, nos anos 80. Hoje parece ter sido uma decisão óbvia, mas na altura foi tudo menos isso – sobretudo porque a Intel retirava a maioria dos seus rendimentos da produção de RAM e a aposta nos microprocessadores parecia um tiro no escuro.

Grove chama a estes momentos na vida de uma empresa “Pontos de Inflexão Estratégica”. Trata-se de um acontecimento que pode demorar mais ou menos tempo, mas quem tem sempre a mesma característica: se a empresa não se adaptar mais ou menos rapidamente às alterações dramáticas que estão a afetá-la (ou a todo o setor de atividade em que ela se insere) acabará por morrer.
Em décadas recentes, a aceleração tecnológica tem trazido consigo muitos destes Pontos de Inflexão Estratégica. Por exemplo, em 1995 muitos foram os que vaticinaram o rápido desaparecimento da Microsoft por esta não ter imediatamente percebido o impacto que a Internet iria ter (e teria mesmo desaparecido caso não tivesse conseguido adaptar-se rapidamente, mas isso são histórias para outro dia).

Em Portugal, o impacto da Internet fez-se sentir sobretudo sobre a empresa que então tinha o monopólio da prestação de serviços de telecomunicações, a Portugal Telecom. Mais: quando os primeiros ISPs independentes surgiram no mercado[1] não existia enquadramento legal para a sua atividade: a prestação de acesso à Internet era algo completamente novo (como os novos ISP pretendiam) ou podia ser enquadrada como um mero “serviço de telecomunicações”, como pretendia PT?

No final, sabemos o que aconteceu: o quadro legal teve de ser adaptado e, ao mesmo tempo que era permitida a entrada a novos operadores, a própria PT também soube adaptar-se e oferecer serviços competitivos. O resto é História.

Vem isto a propósito do atual conflito entre os taxistas e a Uber, a empresa que entrou no mercado com o cavalo de Tróia do “car sharing” e que hoje é muito mais do que isso. Aquilo a que estamos a assistir é ao desenrolar, ao vivo e em tempo real, de um “Ponto de Inflexão Estratégico” no setor dos transportes, neste caso particular, no dos táxis.

A ironia é que nem sequer é preciso ler livros de gestão para entender o que é preciso ser feito, nem ter uma boa de cristal para adivinhar o que irá ser feito (o enquadramento legal terá de ser alterado e a Uber, e empresas similares, irá mesmo entrar no mercado, legalmente). O que é preciso entender é isto: as regras mudaram – mesmo que as leis que as definem levem mais tempo a mudar – e a onda de mudança é inexorável.

Para o setor dos táxis, só há uma forma de sobreviver: mudar, e depressa. Como? Há já apps no mercado que fazem pelos taxistas o mesmo que a Uber faz pelos outros, mas para isso é preciso que o setor se organize e não se disperse, porque ninguém quer ter de usar uma infinidade de apps para chamar táxis – uma só chega.

Claro que o problema para os taxistas não é apenas encontrarem uma alternativa tecnológica à Uber; há problemas – sobretudo de (má) imagem – que não se resolvem de um momento para o outro e que os protestos de rua só contribuem para agravar.

Mas há uma coisa que eu sei: nesta como noutras situações, não vale a pena lutar contra ondas tecnológicas maciças. Porque, tal como na vida real, perante uma onda das grandes ou resolvemos surfá-la ou somos esmagados por ela.
_________________________________
[1] Um dos primeiros foi a Esotérica. O nome, contava à Exame Informática um dos fundadores por volta de 1996, é que «quando íamos aos bancos pedir financiamento e tentávamos explicar o que era o negócio, respondiam-nos invariavelmente que “isso é um bocado esotérico…”»

* Este artigo foi originalmente publicado pelo autor em http://pplware.sapo.pt/informacao/taxis-vs-uber-so-os-paranoicos-sobrevivem/

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Taxis vs Uber: Só os paranóicos sobrevivem *




No final dos anos 90, o recentemente falecido CEO da Intel, Andy Grove, escreveu um livro chamado “Only the Paranoid Survive”.

O livro foi construído a partir dos ensinamentos que Grove retirou da dura transição da Intel de fabricante de memórias para fabricante de microprocessadores, nos anos 80. Hoje parece ter sido uma decisão óbvia, mas na altura foi tudo menos isso – sobretudo porque a Intel retirava a maioria dos seus rendimentos da produção de RAM e a aposta nos microprocessadores parecia um tiro no escuro.

Grove chama a estes momentos na vida de uma empresa “Pontos de Inflexão Estratégica”. Trata-se de um acontecimento que pode demorar mais ou menos tempo, mas quem tem sempre a mesma característica: se a empresa não se adaptar mais ou menos rapidamente às alterações dramáticas que estão a afetá-la (ou a todo o setor de atividade em que ela se insere) acabará por morrer.
Em décadas recentes, a aceleração tecnológica tem trazido consigo muitos destes Pontos de Inflexão Estratégica. Por exemplo, em 1995 muitos foram os que vaticinaram o rápido desaparecimento da Microsoft por esta não ter imediatamente percebido o impacto que a Internet iria ter (e teria mesmo desaparecido caso não tivesse conseguido adaptar-se rapidamente, mas isso são histórias para outro dia).

Em Portugal, o impacto da Internet fez-se sentir sobretudo sobre a empresa que então tinha o monopólio da prestação de serviços de telecomunicações, a Portugal Telecom. Mais: quando os primeiros ISPs independentes surgiram no mercado[1] não existia enquadramento legal para a sua atividade: a prestação de acesso à Internet era algo completamente novo (como os novos ISP pretendiam) ou podia ser enquadrada como um mero “serviço de telecomunicações”, como pretendia PT?

No final, sabemos o que aconteceu: o quadro legal teve de ser adaptado e, ao mesmo tempo que era permitida a entrada a novos operadores, a própria PT também soube adaptar-se e oferecer serviços competitivos. O resto é História.

Vem isto a propósito do atual conflito entre os taxistas e a Uber, a empresa que entrou no mercado com o cavalo de Tróia do “car sharing” e que hoje é muito mais do que isso. Aquilo a que estamos a assistir é ao desenrolar, ao vivo e em tempo real, de um “Ponto de Inflexão Estratégico” no setor dos transportes, neste caso particular, no dos táxis.

A ironia é que nem sequer é preciso ler livros de gestão para entender o que é preciso ser feito, nem ter uma boa de cristal para adivinhar o que irá ser feito (o enquadramento legal terá de ser alterado e a Uber, e empresas similares, irá mesmo entrar no mercado, legalmente). O que é preciso entender é isto: as regras mudaram – mesmo que as leis que as definem levem mais tempo a mudar – e a onda de mudança é inexorável.

Para o setor dos táxis, só há uma forma de sobreviver: mudar, e depressa. Como? Há já apps no mercado que fazem pelos taxistas o mesmo que a Uber faz pelos outros, mas para isso é preciso que o setor se organize e não se disperse, porque ninguém quer ter de usar uma infinidade de apps para chamar táxis – uma só chega.

Claro que o problema para os taxistas não é apenas encontrarem uma alternativa tecnológica à Uber; há problemas – sobretudo de (má) imagem – que não se resolvem de um momento para o outro e que os protestos de rua só contribuem para agravar.

Mas há uma coisa que eu sei: nesta como noutras situações, não vale a pena lutar contra ondas tecnológicas maciças. Porque, tal como na vida real, perante uma onda das grandes ou resolvemos surfá-la ou somos esmagados por ela.
_________________________________
[1] Um dos primeiros foi a Esotérica. O nome, contava à Exame Informática um dos fundadores por volta de 1996, é que «quando íamos aos bancos pedir financiamento e tentávamos explicar o que era o negócio, respondiam-nos invariavelmente que “isso é um bocado esotérico…”»

* Este artigo foi originalmente publicado pelo autor em http://pplware.sapo.pt/informacao/taxis-vs-uber-so-os-paranoicos-sobrevivem/

sábado, 26 de setembro de 2015

Segurança: o “efeito Windows” chegou ao MacOS (e ao Linux)

 

9551909_orig

Durante anos, fui dos que defendi que o Windows não era um sistema operativo intrinsecamente menos seguro que os outros ou, pelo menos, não era essa a razão pela qual todos os dias surgiam novos vetores de ataque, descoberta de novas vulnerabilidades ou novas ameaças.

O meu argumento não ia ao ponto de dizer que o Windows era mais seguro do que o MacOS, por exemplo (para sermos sinceros, foi preciso chegarmos ao Service Pack 2 do Windows XP para a Microsoft levar a segurança no desktop a sério), mas simplesmente que o MacOS não era mais seguro do que qualquer outro sistema operativo para desktops. Na realidade, há até quem alegue que é o menos seguro de todos os sistemas operativos, seguido pelo… iOS; mas para o contexto deste artigo nem precisamos de ir tão longe. Bear with me

Então porque é que o Mac batia o Windows 100 a zero em termos de ameaças? Porque o Windows bate o Mac 10 a 1 em vendas. E apesar de parecer que os hackers têm todo o tempo livre do mundo, o dia tem na verdade 24 horas: o tempo deve ser gasto a fazer coisas (mesmo que pouco legítimas) que provoquem o máximo de dano; poucos eram os que se preocupavam em tomar como alvo um sistema operativo usado por cerca de 10% das pessoas que em todo o mundo usam computadores pessoais.

Ainda assim, de vez em quando lá surgem uns problemas com Macs – sendo que de cada vez que tal acontece, percebe-se que não só os utilizadores mas a própria Apple estão mal preparados para lidar com as ameaças. Já quando o assunto é o Linux, parece não haver sequer argumento: este é – garantem-nos – um sistema operativo “à prova de bala”. Ninguém o usa como sistema operativo de desktop (à excepção, provavelmente, dos que utilizam máquinas Linux para criar malware para outras plataformas…), mas não faz mal: os vírus ali não entram!

Fast forward para 2015 e vivemos num mundo diferente. O Windows continua a ser usado pela esmagadora maioria dos utilizadores de computadores pessoais, mas a plataforma MacOS tornou-se, ainda que marginalmente, mais popular – e começa a ser vítima de cada vez mais problemas de segurança. E, quanto ao Linux, muito embora as previsões de que iria finalmente “descolar” enquanto sistema operativo desktop jamais se materializassem, algo aconteceu – algo chamado Android.

Para muitos fãs do sistema operativo criado por Linus Torvalds, o Android representa a vitória do Linux por portas travessa, uma vez que a plataforma da Google foi na verdade criada a partir do Linux. Mas, se fosse eu, não iria por aí: é que clamar que o Linux ganhou a guerra dos sistemas operativos por causa do Android traz consigo uma outra vitória menos agradável: a da falta de segurança.

Hoje, mais de 90% das vulnerabilidades conhecidas para dispositivos móveis (considerando iOS, Android, Windows Phone e “outros”) afetam dispositivos Android. Na verdade, um relatório citado pela Computerworld durante o MWC 2014, colocava esta percentagem em… quase 100%!

Onde é que eu quero chegar com tudo isto? Simples: que não há sistemas operativos 100% seguros e que a frequência, quantidade e/ou gravidade das vulnerabilidades está sobretudo relacionada com a popularidade de cada um deles. O problema, neste momento, é que o tipo de ameaças que temos hoje desde há muito que deixou de consistir em “vírus”; praticamente nenhuma das modernas ameaças de segurança modernas são vírus informáticos no sentido rigoroso do termo (no sentido de que não “infectam” ficheiros nem se “auto-replicam”). Contudo, não deixam de ser mais graves por causa disso, bem pelo contrário.

O problema tem também a ver com a forma como usamos os nossos computadores. Na esmagadora maioria dos casos (em todos, no que diz respeito a dispositivos móveis….), estamos online a partir do momento em que nos ligamos, e isso torna-nos mais vulneráveis. O nosso sistema operativo será tão seguro quanto o seu elo mais fraco e esse pode nem ser o próprio OS mas o browser, uma extensão do browser, um leitor multimédia, o interpretador de Java, o plug-in de Flash…

Há moral nesta história. E a moral é que não nos devemos sentir seguros só porque usamos o sistema operativo X, Y ou Z. A segurança vem da nossa abordagem aos perigos potenciais, das nossas práticas, da nossa atitude online, da forma como usamos os dispositivos.

É que quanto mais seguros estivermos da suposta invencibilidade do dispositivo/plataforma que usamos, menos seguros estamos na realidade.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O último Windows *


O Windows 10 é uma má notícia para todos os que ao longo dos últimos anos têm vaticinado que “a Microsoft está acabada”. Felizmente, é uma boa notícia para todos os outros…A propósito do lançamento do Windows 8, o então CEO da Microsoft, Steve Ballmer, disse que estávamos na presença de um lançamento tão importante para a empresa como o fora o Windows 95.

Três anos depois, a profecia não cumprida de Ballmer vai tornar-se realidade com o Windows 10. E, muito embora tudo dependa da forma como a estratégia da Microsoft for executada (no mundo dos negócios, mas sobretudo no da tecnologia, a execução é tudo), estou disposto a acreditar que estamos – finalmente – na presença de um lançamento ao nível do que foi o do Windows 95, há quase 20 anos.
 
Há boas razões para isso, mas deixo-vos aqui apenas cinco: 
  1. A estratégia da atualização gratuita. A Microsoft sabe que o tempo urge e que quanto mais depressa criar uma grande base instalada de Windows 10 mais depressa irá convencer os criadores de software – desde pequenos programadores solitários até às grandes software-houses – a subirem a bordo, melhor. Por isso, a ideia de oferecer o Windows 10 a quem quer tenha hoje o Windows 7 ou 8/8.1, inclusive, só foi surpreendente para quem não percebeu que a Microsoft teria a perder se fizesse o contrário muito mais do que os dólares que deixará de ganhar com esta abordagem.
  2. Um só Windows. Ao contrário da Google (Android/Chrome OS) e da Apple (MacOS/iOS), a Microsoft tem uma estratégia de um só sistema operativo para todos os dispositivos. Pode não parecer importante, mas é, nomeadamente porque permite as razões 3. e 4.
  3. As apps universais. A pressa da Microsoft em que todos adotem o Windows 10 é tanto mais crítica quanto esta é a versão que irá fazer pelo estratégia mobile da empresa o que o Windows 8 devia ter feito mas não fez. É que enquanto aquele pretendeu unificar a interface do Windows em todos os dispositivos, o Windows 10 leva a ideia mais longe: mais do que a interface, será o mesmo Windows que teremos em desktops, notebooks, tablets, smartphones, na Xbox One e até na Internet of Things, com o suporte para Raspberry Pi. O que é que isto significa? Significa que quem programa pode desenvolver uma aplicação que funciona tão bem num computador de secretária como num smartphone sem que tenha de gastar o dobro dos recursos no seu desenvolvimento.
  4. Continuum. O Windows 8 foi claramente um sistema operativo à espera do hardware que dele tirasse partido. Mas, nos últimos três anos, os principais fabricantes mundiais trouxeram-nos finalmente máquinas “convertíveis” que conjugam da melhor forma funcionalidades de um notebook com os aspetos práticos de um tablet. Uma funcionalidade do Windows 10 chamada Continuum permite que estas máquinas funcionem com o familiar desktop quando estão a ser usadas com um teclado físico e como um tablet com a chamada nova “interface moderna” quando se libertam do teclado. Mas a mesma funcionalidade irá permitir ainda – numa nova geração de dispositivos móveis que chegará apenas no Outono – que um smartphone possa ser ligado a um teclado, rato e monitor e que as suas “apps universais”, como o novo Office 2016 possam ser usadas como se de repente tirássemos um desktop do bolso.
  5. Windows como um serviço. É possível que a ideia mais revolucionária de todas não seja o Windows 10 em si mesmo, mas o facto de a Microsoft aproveitar esta oportunidade para transformar a forma como olhamos para o sistema operativo mais popular de sempre: esta é provavelmente a última versão do Windows. A partir de agora, o Windows passará a ser atualizado continuamente, mas não como até agora. Por um lado, estas serão atualizações automáticas e mandatórias (só os utilizadores empresariais poderão impedir que o Windows seja atualizado automaticamente); por outro, a Microsoft não se limitará a oferecer atualizações para correção de bugs e problemas de segurança. Pelo contrário, o Windows receberá continuamente melhorias que vão desde novos drivers até mais e melhores funcionalidades. E deixa de fazer sentido pensar em novas versões.
Com o que atrás ficou dito, poderá parecer que a Microsoft desistiu simplesmente de ganhar dinheiro com o Windows, de “mugir” aquela que foi até hoje a sua principal “cash cow”. Afinal, prepara-se para o oferecer a milhões de utilizadores em todo o mundo – estima-se em mais de mil milhões o potencial de máquinas que podem receber esta atualização ao longo dos próximos doze meses – e para deixar de vender upgrades.
 
Acontece porém que desde sempre que a maior parte das pessoas não compra novas versões do Windows: na esmagadora maioria dos casos, os utilizadores acedem a uma nova versão do Windows comprando… um computador novo. E, pelo menos por enquanto, não há notícias de que a Microsoft tenha decidido oferecer o Windows aos fabricantes.
 
Mas qualquer que seja a estratégia futura, uma coisa é certa: esta já não é a mesma Microsoft que lançou o Windows 8. Esta é a Microsoft que lançou o último Windows.
 
__________________

* Artigo publicado originalmente no Wintech

segunda-feira, 22 de junho de 2015

It's the interface, stupid! *

A relação do Windows Phone com o mercado móvel tem mais semelhanças com a Apple do que pode à primeira vista parecer…


Em meados de 1994 estava eu a trabalhar no Público quando foi decidido criar o suplemento Computadores, para o qual eu escrevi até deixar o jornal em 1995 para lançar a Exame Informática.

Devido às circunstâncias da sua criação, a redação do Público era totalmente baseada em computadores Macintosh, nomeadamente Macintosh II e Macintosh Classic (sim, os tudo-em-um de 9’’!). A maioria das pessoas adorava os seus Macs; muitos tinham com eles uma relação de amor-ódio; e outras (como eu, admito), odiavam-nos.
Mas trava-se, acima de tudo, de ferramentas de trabalho. Numa era pré-Internet, eram pouco mais do que máquinas de escrever sofisticadas. Não me lembro de correr lá nada mais do que o Word e de aceder à rede.

Apesar de poder dizer que “I’m a PC”, recomendei por diversas vezes a aquisição de um Macintosh a quem na redação me vinha perguntar qual a máquina que devia adquirir lá para casa. Tudo depende do dinheiro que se quer/pode gastar e do objetivo a que se destina o equipamento. Mas lembro-me também de um jornalista que decidiu mesmo comprar um PC – um Compaq, penso eu – e que dias depois o foi entregar à loja.
A justificação que deu ficou-me na cabeça desde então. Foi mais ou menos isto: “Se 100 contos [500 euros] é a diferença que tenho de dar para ter a interface do Macintosh, então é isso que vou pagar”.

É bom lembrarmo-nos que estávamos ainda a mais de um ano do lançamento do Windows 95. O Windows 3.11, que era o que se usava nos PCs da altura, estava – admitamo-lo – a anos-luz do que a Apple já oferecia.
Interface, preço e aplicações

Muitos dos argumentos “Mac vs PC” mudaram, mas muitos deles mantêm-se. Na lista do que se mantém está a diferença de preço médio entre o que se paga por um Apple face a um PC com hardware semelhante – sendo que na altura esta diferença era difícil de quantificar, porque os Macintosh usavam processadores Motorola e uma arquitetura diferente, enquanto agora são basicamente PCs com um BIOS diferente.
Um outro argumento recorrente, que hoje é muito menos sensível do que há 20 anos, era o do software disponível: optar por um Mac significava prescindir do acesso a uma biblioteca de software importante. Os Mac eram os preferidos (e continuam a ser) para aplicações de design gráfico, tratamento de imagem e outros nichos (música, por exemplo) mas, para tudo o resto, o PC era intocável.

O facto de alguém, há 20 anos, preferir gastar mais para ter um Macintosh mesmo sabendo que não ia poder correr uma grande parte do software disponível para PCs demonstra bem o quanto a diferença de interface era então significativa – e o quanto era valorizada por quem, podendo pagar a tal diferença de preço, procurava sobretudo um produto fácil de usar.
O Windows Phone

Muitas pessoas hoje perguntam-me porque uso um Nokia Lumia e, ainda sem me deixarem responder, acrescentam logo que “não tem tantas apps como para estes [iPhone ou Android], pois não?”.
Confesso que, mesmo sem nunca ter tido um produto Apple (apesar de ter trabalhado com imensos equipamentos da marca durante vários anos), só agora é que compreendo verdadeiramente a paixão de quem não considera usar algo que não tenha o símbolo da maçã.

É que a resposta à pergunta que me fazem é a mesma que sempre ouvi ao longo dos anos quando perguntava aos meus amigos fãs da Apple (poucos, admito…) porque não tinham comprado um PC. E a resposta era dupla: que a interface do MacOS é muito superior ao Windows [mesmo que isso seja discutível]; e a de que “há muito mais software para Windows, mas eu só uso meia dúzia de aplicações e as que preciso, há para Mac”. Perante isto, de nada vale argumentar – e quanto à diferença de preço, desde que quem paga a chamada “Apple Tax” sinta que está a pagar por algo que vale a pena, ficamos todos felizes.
Acontece que é isto exatamente o que eu digo hoje a quem me pergunta porque insisto em usar o Windows Phone: porque a interface do Windows Phone é muito superior ao iOS [mesmo que isso seja discutível] e porque “há muito mais software para Android e iOS, mas eu só uso meia dúzia de aplicações e as que preciso, há para Windows Phone”.

Claro que existe, depois, uma outra diferença: para eu ter o que quero, não preciso de pagar mais. E assim ficamos todos felizes. ;-)
____________________________
* Artigo publicado originalmente no website iClub.PT

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O futuro dos tablets *

O produto que foi considerado como responsável pela morte anunciada do PC está, afinal, a morrer.


         
O lançamento do iPad pela Apple em 2010 criou, praticamente da noite para o dia, uma nova categoria de produto que tomou de assalto o mercado da informática. Mas o êxito instantâneo dos tablets, potenciado pela assimilação do formato por parte dos equipamentos baseados em Android – sobretudo após o lançamento em 2011 da versão 3.0 Honeycomb – não surgiu sem vítimas: o PC, diziam-nos, tinha os dias contados.
Fui dos que nunca percebeu muito bem como é que um dispositivo criado assumidamente para consumir conteúdos poderia substituir equipamentos cujo objetivo consistia em criá-los. Mas não devemos nunca deixar que a realidade se interpunha entre nós e uma boa história…
E, para sermos sinceros, o mercado dos PCs sofreu realmente com a introdução dos tablets. De repente, era possível vermos gráficos de linhas (nada como um bom gráfico para convencer a audiência!) que mostravam uma relação inversamente proporcional entre as vendas de tablets em crescendo e as vendas de PCs a cair. O futuro? Fácil: bastava continuar a puxar ambas as linhas na direção para a qual apontam e, dentro de (poucos) anos, garantiam-nos, o PC está morto.

A morte… do netbook

E, realmente, houve vítimas mortais. De forma fulminante, o netbook morreu. Acontece porém que este tipo de PC não só foi o único a morrer às mãos do mais popular e sexy tablet, como a sua morte era inevitável.
O formato, inventado pela Asus com o seu EeePC original em 2007, foi também ele pensado para o consumo de conteúdos. O netbook, diziam-nos, não se destinava a substituir nenhum outro tipo de PC mas sim a complementá-lo; a ideia não era ter uma máquina para criar grandes textos ou correr enormes folhas de cálculo, mas sim para navegar na Web, consultar o email e pouco mais. Ou seja, exatamente aquilo para o qual o tablet foi criado!
A razão pela qual os tais gráficos mostravam uma correlação inversa perfeita entre vendas de tablets e queda de vendas de PCs é que estes PCs eram na verdade, na maioria dos casos, netbooks – o produto que o tablet veio substituir.
O problema com os cálculos dos mais pessimistas (ou otimistas, consoante o ponto de vista) é que no mundo da informática é extremamente arriscado realizar projeções a longo prazo; o mercado muda demasiado depressa e o que é hoje verdade deixa de o ser amanhã. Basta que para tal surja um produto que mude as regras do jogo – tal como o tablet o fez.

O efeito “phablet”…

E, neste caso, esse produto chama-se “phablet” (phone+tablet). O pioneiro Samsung Note, lançado em 2011 na IFA com um ecrã de 5,3’’, recolheu quantidades idênticas de indiferença e críticas negativas (“demasiado grande para ser prático como telefone e demasiado pequeno para fazer sentido como um tablet”, garantiam-nos) sendo poucos os que na imprensa se mostraram realmente entusiasmados com a proposta, mas o público gostou e acabou por determinar uma tendência no mercado que alterou – novamente – as regras do jogo.
O efeito do Samsung Note não funcionou da mesma forma que o Apple iPad. Enquanto o último foi um sucesso instantâneo, o primeiro valeu sobretudo pelo que representa e pela tendência criada, mais do que pelo seu próprio êxito comercial.
O que o Note fez foi abrir as portas para a tendência – que ainda se mantém – de smartphones com ecrãs cada vez maiores. E os dados do mercado indiciam que foi esta apetência por equipamentos móveis com ecrãs de grandes dimensões uma das responsáveis pela erosão da quota de mercado da Apple.
É evidente que, da mesma forma que o Windows, depois de representar mais de 90% do mercado mundial de PCs, só podia perder quota de mercado, também o iPhone dificilmente conseguiria segurar a sua posição hegemónica, obtida quer por mérito próprio quer pela lenta reação do mercado.
Mas estou convencido de que, tanto ou mais do que o baixo preço dos terminais Android, foi a possibilidade de escolha entre inúmeros modelos de smartphones com ecrãs de grandes dimensões que permitiu a rápida ascensão dos equipamentos com o sistema operativo da Google.

… e a morte anunciada do tablet

Num mercado em que um smartphone com ecrã de 5’’ já é considerado normal e o termo “phablet” caiu em desuso (o ecrã de 5,5’’ do iPhone 6 Plus é maior que o do Samsung Note original!), não é o PC que está em risco de desaparecer: é o tablet.
O primeiro sinal de alarme surgiu no início de 2014, quando foram conhecidos os números referentes ao ano anterior. Já em 2013 era claro que o crescimento dos tablets estava a desacelerar e que, depois da hecatombe dos netbooks, o mercado dos PCs dava sinais claros de recuperação.
O que as análises aos números demonstravam é que não só o ritmo de adoção dos tablets estava a ser muito mais lento do que o inicialmente esperado – ainda por cima tão pouco tempo depois da introdução do novo formato – como também o ritmo dos upgrades de equipamentos era muito menor do que, por exemplo, no mundo dos PCs.
Esta realidade parecia ser o resultado da conjugação de dois fatores: algum desencanto dos utilizadores, a quem tinha sido vendida a ideia de que o tablet podia substituir todos os outros equipamentos da sua vida digital; e a ideia de que um upgrade para um novo tablet não trazia grandes vantagens sobre o produto que já se possuía.
A chegada dos números referentes a 2014 permite-nos já tirar conclusões mais concretas. Confirma-se a tendência para uma forte desaceleração do crescimento dos tablets, a venda de PCs recupera de forma muito clara e… as vendas de smartphones com ecrãs de formato igual ou superior a 5’’ dispara de forma explosiva.
E é neste último ponto que se joga o futuro dos tablets. Inicialmente, o tablet andava connosco como complemento ou até mesmo substituto do notebook. Contudo, se temos também no bolso um smartphone de 5,5’’ ou até mesmo de 6’’, fará ainda sentido carregarmos também um tablet?
Na prática, um smartphone faz tudo o que precisamos e ainda mais – porque são o nosso principal dispositivo de comunicação e porque as suas câmaras digitais são vastamente superiores às dos tablets (e já nem falo na figura ridícula que fazem os utilizadores destes quando os empunham para tirar fotos…). Para milhões de utilizadores que não conseguem passar sem o seu smartphone no bolso, o tablet deixou de fazer sentido.
De repente, o nosso mundo digital clarificou-se novamente: temos o notebook (o PC, o Mac) para criarmos conteúdos, para trabalhar; e temos o smartphone para tudo o resto.
O tablet poderá ainda encontrar o seu lugar como máquina de jogos barata para os membros mais novos da família, como controlo remoto do equipamento audiovisual, como leitor de e-books… Mas o que não será é o dispositivo que substituirá o PC porque, em tudo o resto, já foi ele próprio substituído.
_________________

* Artigo publicado originalmente no website iClub.pt

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

OBD-II – O automóvel "ligado" *

Praticamente todos os fabricantes de automóveis oferecem hoje uma panóplia de equipamentos que permitem a interligação com dispositivos móveis, como ou sem fios, ou até mesmo a ligação à Internet para todos os ocupantes do veículo.
 
Isso tudo é muito bonito, mas o mais interessante seria a possibilidade de nos ligarmos ao cérebro eletrónico do nosso carro de forma a termos acesso a diagnósticos e dados do seu funcionamento em tempo real.
 
Acontece que isso é possível em praticamente qualquer automóvel: todos os veículos produzidos para o mercado dos EUA desde 1996 e todos os automóveis a gasolina (desde 2001) e diesel (desde 2003) à venda na Europa estão equipados com uma interface normalizada designada OBD-II (iniciais de On Board Diagnostics.
 
Durante anos, esta interface foi apenas usada pelas oficinas para “ligar o carro à máquina” e realizar diagnósticos. Contudo, desde há algum tempo que qualquer pessoa pode fazer o mesmo de forma muito simples e barata: basta adquirir um pequeno dispositivo designado ELM327 que permite ler e interpretar os dados disponibilizados pelo veículo através da interface OBD-II e transmiti-los via Bluetooth ou Wi-Fi para um computador ou smartphone.
 
Melhor ainda, estes dispositivos podem ser adquiridos na Internet por menos de 10 euros! Os dispositivos ELM327 mais baratos e básicos limitam-se a ler os códigos de erro, mas mesmo aparelhos de apenas cerca de €20 podem incluir mais funcionalidades e sensores adicionais que dão uma ideia muito abrangente do desempenho do veículo.

Plug & Play
Tudo o que precisa de fazer para poder diagnosticar problemas no seu automóvel sem ter de recorrer a dispendiosos serviços de uma oficina é determinar onde é que o seu veículo tem a interface OBD-II com uma pesquisa via Google tipo “OBD-II [nome do seu carro]” ou através de websites especializados, como é o caso de  www.outilsobdfacile.com.
 
Dependendo do veículo, a tomada tanto pode estar facilmente acessível dentro do porta-luvas como junto à caixa de fusíveis ou por detrás de uma tampa de plástico no painel de instrumentos. De qualquer forma, não deverá ser difícil encontrá-la e aceder-lhe.
 
Uma vez localizada a tomada, é só ligar o dispositivo ELM327, o qual se emparelha com qualquer smartphone ou computador via Bluetooth. Basta então escolher uma app entre a infinidade de programas que existem em qualquer app store para este efeito (sim, até para Windows Phone…) e a magia acontece!
 
Uma vez que os códigos de diagnóstico recolhidos pelo dispositivo ELM327 podem ter significados diferentes consoante a marca, modelo e até ano do veículo, a app recorre a bases de dados na Internet para determinar o seu real significado. Algumas apps limitam-se a ler os dados e a interpretá-los, mas há outras que vão ao ponto de oferecer resultados em tempo real, enquanto conduz – o que é possível caso a posição da interface OBD-II o seu carro e o tamanho do dispositivo ELM327 que adquiriu permitam a sua instalação permanente.
 
Uma das vantagens de uma instalação permanente é que pode depois usar apps que façam um registo do que se passa com o veículo ao longo de um período de tempo, o que é crucial para conseguir detetar avarias que se relevem de forma intermitente mas que deixam atrás de si um registo sob a forma de códigos de erro.
 
A menos que saiba realmente o que está a fazer, não é aconselhado que decida reparar o seu carro com base nos dados fornecidos através deste sistema, mas pelo menos tem agora uma forma de chegar à oficina já com uma ideia mais concreta do que se passa com o seu veículo, evitando situações menos claras.
 
* Artigo publicado originalmente no website Internext