sexta-feira, 6 de junho de 2014

O problema dos tinteiros reciclados (e um sítio para os comprar baratos)

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Ontem (dia 5 de Junho) foi o Dia Mundial do Ambiente e, por coincidência, foi também o dia em que chegou uma encomenda que fiz de uma loja online: um conjunto de tinteiros para as minhas impressoras HP Officejet.

E porque é que isto tem a ver com o ambiente? Porque a questão ambiental, nomeadamente dois dos três “R” (“Reutilizar” e “Reciclar” – sendo o primeiro “Reduzir”), é uma das mais usadas para justificar a aposta nos chamados “tinteiros reciclados” para impressoras de jato de tinta.

O problema com as impressoras é que o modelo de negócio dos fabricantes desde há muito que passou a ser semelhante ao da Gilette: propor o hardware ao menor preço possível e recuperar o dinheiro com a venda dos consumíveis. Uma rápida visita a um website português de venda de equipamento informático permite constatar isso mesmo: uma impressora HP Deskjet 2544 custa €65 enquanto um conjunto de dois tinteiros (preto e tricolor) fica por… €37. A partir do momento em que comprar o segundo kit de tinteiros já ultrapassou o valor que pagou pelo hardware!

Não admira por isso que nos últimos anos tenha surgido uma verdadeira indústria de reciclagem de tinteiros. Os preços dos tinteiros reciclados (tinteiros já usados que foram reenchidos com tinta) oscila entre 2/3 e 1/3 do preço dos tinteiros originais, pelo que é fácil perceber porque é que se tornaram tão populares.

O problema dos tinteiros reciclados…

Os principais fabricantes (HP, Epson, Canon, etc.) dão vários argumentos para que os consumidores adquiram suprimentos originais, desde a perda da garantia no caso de avaria durante a utilização de tinteiros que não sejam da própria marca (o que é verdade) até ao facto de que as tintas usadas não têm a mesma qualidade da tinta original (o que também é verdade mas, na prática, a maioria dos utilizadores pouco se importa com isso).

Acontece porém que o principal problema é outro, e bem mais grave: a maioria das impressoras de entrada de gama custa muito pouco dinheiro (quando comparamos com o preço dos tinteiros) porque a tecnologia mais cara e importante – a cabeça de impressão – está no próprio tinteiro!

Ou seja, quando adquirimos um tinteiro novo, estamos praticamente a comprar uma impressora nova. Pode não ser verdade em termos do resto do hardware (motores, roletes, etc.) mas é certamente verdade no que diz respeito à qualidade de impressão. O que nos traz ao verdadeiro problema com a utilização de tinteiros reciclados: o fabricante concebeu o tinteiro com uma cabeça incorporada que não deverá durar muito mais tempo do que o necessário para esgotar a tinta que lá tem dentro. Ao entregarmos um tinteiro (com a respetiva cabeça) a uma empresa de reciclagem para que ela o reencha com tinta, a cabeça (que não foi mexida durante o processo de reciclagem, evidentemente) vai estar a trabalhar para além do ciclo de funcionamento para o qual foi criada.

Na prática, um tinteiro reciclado, mesmo assumindo que usa tinta de qualidade equivalente à da marca, nunca irá imprimir tão bem como um tinteiro normal, pela simples razão de que a sua cabeça já teve de funcionar durante bastante tempo. Quando sabemos que muitas empresas de reciclagem reutilizam também tinteiros que já foram reciclados, o problema deixa de ser apenas saber se o tinteiro vai funcionar com qualidade mas… quando é que irá rebentar dentro da impressora.

… e das cartridges de tinta

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Ao contrário do que sucede com a maioria das impressoras domésticas, as minhas HP Officejet utilizam tinteiros (cartridges) totalmente separados das cabeças de impressão.

Estas cartridges (com a referência HP 88XL) têm uma muito longa duração e normalmente não consumo mais do que um kit por ano em cada uma das minhas duas impressoras.

Contudo, quando é preciso comprar, o valor é significativo: cada um dos tinteiros de cor custa cerca de €25 euros (€75 no total) e o tinteiro de preto, de alta capacidade, fica por €35. Tudo somado, são €110 de tinta “original” sempre que é preciso adquirir tinteiros (um bónus dos tinteiros separados é que pelo menos podemos comprar só o tinteiro de que necessitamos).

Até há pouco tempo, a minha opção tinha sido a de adquirir tinteiros originais a partir da Amazon inglesa. Com os porte gratuitos, um kit de 4 tinteiros ficava por quase metade do que era possível comprar em Portugal. Contudo, agora a empresa voltou a cobrar portes para Portugal e o negócio deixou de ser tão interessante.

Mas, pelo menos, a situação teve o condão de me levar a procurar alternativas. Não consegui encontrar em Portugal cartridges recicladas de substituição HP 88XL. Mas encontrei cartridges compatíveis. A diferença é que as primeiras usam o invólucro original e limitam-se a ser reenchidas com tinta enquanto as segundas são produzidas por empresas independentes para serem compatíveis, mas não usam nenhuma parte do consumível original.

No caso da HP (não sei como é noutras marcas, mas presumo que seja uma situação semelhante), a opção por cartridges compatíveis (por opção a recicladas) tem um risco – nalguns casos é possível que a impressora detete o novo consumível como sendo “incompatível” e se recuse a funcionar. Isto pode acontecer quando se mistura cartridges compatíveis com consumíveis originais da marca, mas também é possível que aconteça com kits compatíveis completos.

Bem, a história já vai longa, mas deixei o melhor para o fim: encontrei um local na Internet onde adquiri cartridges 88XL compatíveis para as minhas Officejet com um preço fantástico e que não me dão problemas de compatibilidade (no dia em que escrevo, imprimi mais de 500 páginas a cores com estes novos consumíveis).

O preço de um conjunto 88XL completo (3 cores + 1 preto), cujo preço de referência em Portugal é de €110? A módica quantia de… €15 euros – já com IVA e já com portes!

A minha experiência é apenas com a referência compatível HP 88XL, mas apontem os vossos browsers para www.theinksquid.com e vejam se encontram alguma coisa que sirva na vossa impressora. Lembrem-se apenas de escolher um produto que seja “compatível” e não “reciclado”. E boa sorte.
P.S.: Não tenho comissão. Piscar de olho

terça-feira, 6 de maio de 2014

Nokia 515: o melhor telemóvel de sempre?

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Quando o Nokia 515 foi anunciado, em 2013, a esmagadora maioria dos comentários e artigos que li foram negativos. Aparentemente, num mundo em que todos parecem gostar do mesmo (vocês sabem do que falo…), a ideia de um telemóvel (não podemos realmente chamar smartphone ao Nokia 515, mas já lá vamos) que custa o mesmo (ou até mais) que muitos Androids ou até Lumias de gama baixa parece não fazer sentido.

Mas faz. Faz porque o Nokia 515 foi criado para preencher um nicho que, sendo provavelmente pequeno, existe: o dos que pretendem um telemóvel de alta qualidade mas que procuram sobretudo autonomia, simplicidade de operação e que desprezam ecrãs tácteis. Um telemóvel com uma câmara fotográfica decente que também possa servidor de leitor de música, mas sobretudo um telemóvel para telefonar, enviar e receber mensagens e… pouco mais.

O mercado está neste momento dividido entre smartphones sofisticados e simples telemóveis (“dumb phones” ou “feature phones”, o que lhe queiram chamar), mas dividido de forma a que cabe aos telemóveis o papel de gama (muito) baixa. Ou seja, quem hoje faz questão de ter um equipamento simples e fácil de usar, com teclado e sem “floreados” tem de se contentar com um dispositivo baratucho produzido em plástico de qualidade duvidosa (há plástico e… plástico!, como o podem comprovar os felizes possuidores de um Nokia Lumia) e com um mínimo de funcionalidades.

O Nokia 515 é um telemóvel 3G dual band simples e fácil de usar mas que oferece uma excelente qualidade de construção com um corpo em alumínio e ecrã protegido por Gorilla Glass de 2.ª geração, resistente aos riscos. A câmara fotográfica é de 5 MP com flash de LED (uma funcionalidade inexistente até em muitos smartphones do mesmo preço). Existem uma versão Dual SIM. Tem leitor de cartões microSD até 32GB. E a bateria é como o coelhinho da Duracell: dura, dura, dura…

Na prática

Há cerca de duas semanas, a Nokia Portugal fez-me chegar um destes telemóveis para testes, para que as minhas impressões iniciais quando soube do produto pudessem ser confirmadas (ou não) na prática.

A sensação inicial quando se pega no telemóvel é o seu peso: uma vez que é produzido sobretudo em alumínio, é mais pesado do que imaginaríamos (101 gramas), mas no bom sentido – aquele tipo de peso que nos faz sentido que estamos na presença de um produto de qualidade.

Ao usar o Nokia 515 com o meu SIM, a primeira coisa que fiz foi transferir os contactos do meu Nokia Lumia 820. Isto é feito de forma muito simples, via Bluetooth, através de uma app adequadamente chamada Transfer, a partir do Nokia 515. O processo é feito em três passos (cópia, confirmação e gravação) e os quase mil contactos do meu Lumia foram transferidos sem problemas em cerca de 5 minutos.

Os meus primeiros smartphones foram um Nokia N80i e um Nokia E75, ambos com sistema operativo Symbian. O Nokia 515 utiliza o Series 40 que, apesar de ser tecnicamente distinto do Symbian, tem uma lógica de utilização e navegação interna muito semelhante, pelo que a sua personalização me pareceu fácil; em poucos minutos já me sentia à vontade a utilizá-lo. Apesar do sistema operativo S40, a verdade é que este “telemóvel” passaria bem por um “smartphone” há apenas alguns anos.

O novo 6310i?

O último telemóvel Nokia que usei e de que ainda guardo grandes saudades foi o 6310i. É tão bom que ainda se encontra à venda novo (NOS – New Old Stock) na Amazon e na eBay por… cerca de 150 dólares! De alguma forma, o Nokia 515 lembra-me o meu saudoso 6310i. É o que eu chamaria de purposefull: tudo no seu desenho transpira funcionalidade. As funções que possui são as que têm de lá estar; as que não tem, não servem o objetivo para o qual foi criado.

E o que é que não tem? Como já vimos, não tem Symbian, mas o mais básico S40. Porquê? Porque o S40 chega para aquilo para o qual foi desenhado – para ser simples de usar e não gastar energia em funcionalidades acessórias. O mesmo quanto à conectividade: é 3G dual band (útil para quem viaja) e tem Bluetooth 3.0 mas… não tem Wi-Fi. Tem mesmo assim Facebook e Twitter mas é mais para desenrascar do que para usar.

Admito que a lacuna do Wi-Fi seja difícil de engolir para alguns potenciais interessados, mas imagino que a equipa da Nokia que criou o 515 tenha tido de traçar uma linha algures: vamos incluir isto, aquilo não faz sentido… E o Wi-Fi ficou do lado do que não faria sentido dado o mercado-alvo deste telemóvel.

Também o preço (em Portugal, é um exclusivo da Vodafone Negócios, que o propõe a partir de €20 ou €121 sem contrato) não me parece excessivo. A comparação com smartphones mais baratos, que oferecem mais por menos, não tem em consideração que este é um produto premium para quem menos é mais.

No final, a única queixa que encontro tem a ver com software e não com hardware: o Nokia 515 possui funcionalidade através de apps integradas para realizar backup da sua informação mas é inconcebível que a Nokia não suporte o 515 nem no Nokia Suite nem sequer no PC Suite, aplicações que para muita gente é ainda a razão para usar um Nokia. Com o PC Suite conseguimos apenas ligar o 515 no “modo modem” (o qual permite a um PC ligado ao telemóvel através de cabo ou de Bluetooth usar o modem 3G interno para aceder à Internet). É um truque giro, admito, mas sinto falta de um “modo PC Suite” completo como nos meus velhos Nokia com Symbian.

Conclusão

Desde o início que sabia que o Nokia 515 não é uma máquina para mim – estou muito satisfeito com o meu Lumia 820. A questão era saber se fazia de facto sentido para quem procura um telemóvel. E a resposta, como já devem ter percebido, é um sonoro “sim”.

Este é um telemóvel que imagino ser o ideal para muitas pessoas que conheço e que não se entendem com smartphones nem ecrãs tácteis mas querem um produto de qualidade. Essas pessoas não querem o Wi-Fi para nada e não tinham interesse em usar o PC Suite para sincronizar informação com o telemóvel, como eu fazia nos tempo do 6310i. Para elas, o Nokia 515 é simplesmente perfeito e, com o futuro da divisão de dispositivos da Nokia nas mãos da Microsoft – cujos planos passam sobretudo pela gama Lumia – este é bem capaz de ser o derradeiro telemóvel da Nokia.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Windows Phone e o “app gap“

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O chamado app gap (o “fosso” representado pelas aplicações presentes nas plataformas iOS e Android mas não em quaisquer outras) é um tema recorrente sempre que se pretende demonstrar o quanto a Microsoft ainda tem de andar até estabelecer o Windows Phone como um sistema operativo móvel credível.

Acontece contudo que, pelo menos do meu ponto de vista, nem os argumentos de um lado nem do outro me convencem – ou sequer me parecem acertados. E explico porquê.

O aplication gap já não existe?

Joe Belfiore, responsável pela equipa do Windows Phone, produziu em novembro passado um tweet famoso em que afirmava que o app gap tinha chegado ao fim (nesse tweet, Belfiore falava que o “gap” estaria fechado até ao final de 2014 mas logo depois corrigiu – ele queria dizer 2013…).

A ideia é que praticamente todas as aplicações mais desejadas pelos utilizadores – com especial destaque para o Instagram – estavam, ou iriam estar muito brevemente, disponíveis até ao final de 2013.

Reconheço que não sou um bom exemplo, uma vez que utilizo um número reduzido de aplicações e o Instagram não é uma delas, mas gostaria de discordar. Primeiro, o Instagram é um péssimo exemplo a vários níveis: a) nunca ninguém disse, durante o período em que a aplicação esteve apenas disponível para iOS, que o Android não era uma plataforma viável por causa disso; b) 6Tag, uma aplicação de Instagram para Windows Phone que é melhor que a própria app oficial, estava disponível há imenso tempo; c) a app de Instagram oficial foi lançada em beta e incompleta – e assim continua vários meses depois do seu lançamento.

Além disso, como muitos já têm salientado, o Windows Phone não tem apenas um app gap; tem também um schedule gap: as principais apps, mesmo quando acabam por chegar à plataforma, chegam muito mais tarde.

O verdadeiro app gap…

Mas para mim, o problema nem sequer é esse. Se falarmos apenas das apps principais, Belfiore tem razão: há neste momento muito pouca coisa que não esteja já disponível para Windows Phone – ou que, não estando, esteja para chegar em breve. O próprio schedule gap tem-se reduzido substancialmente nos últimos meses. Sob todos estes pontos de vista (e alguns outros mais de que não irei falar agora), o Windows Phone é de facto a “terceira plataforma” móvel – e a ganhar massa crítica todos os dias.

Acontece que, para mim, o verdadeiro app gap não é o das aplicações principais. É o de todas as outras. A foto que ilustra este artigo foi tirada no início de janeiro de 2014 num terminal rodoviário. Mostra que o operador – a Rede Nacional de Expressos – tem uma app que os seus clientes podem usar para consultar horários, trajetos e realizar reservas. Disponibilidade? Apenas para Android – a versão para iOS (mas apenas essa) está prometida para breve.

Um exemplo completamente diferente e mais recente? A app RTP 5i, acabada de lançar com pompa e circunstância e igualmente disponível para os suspeitos do costume: Android e iOS. Promoções no seu restaurante preferido? Descarregue a app para iOS ou Android. Reservas na TAP? Visita guiada ao museu X ou Y? Há uma app para isso – mas não para Windows Phone…

Mais exemplos? Acabei de chegar da DISTREE, uma feira que se realiza todos os anos no Mónaco e que junta marcas e fabricantes à procura de canais de distribução na Europa. Nela se pode tomar contacto em primeira com dispositivos que só mais tarde chegarão ao mercado; muitos deles não sobreviverão a mais um ano, mas outros acabam por se tornar extremamente populares – a câmara de ação GoPro foi mostrada num destes eventos (onde ganhou um prémio “Fresh”) antes de se tornar no sucesso que se lhe conhece.

Ora o que têm em comum muitos dos produtos mostrados na DISTREE é o facto de serem “connected devices”, desde smartwatches até sondas que enviam as necessidades de nutrientes de uma planta para o smartphone para que possa ser regada e fertilizada nas doses e momentos certos. Claro que há mais uma coisa que estes dispositivos “ligados” têm em comum: praticamente todos eles funcionam com apps para Android e iOS… E só.

São estas (milhares de) pequenas apps que, não tendo a notoriedade de um Instagram, contribuem para um verdadeiro app gap e, pior do que isso, dão os utilizadores de Windows Phone a sensação de que o seu smartphone é uma espécie de “parente pobre” do mundo da conetividade móvel. O que de certa forma, e pelo menos por enquanto, é verdade.

 

O “efeito Word” e os power users

Podemos argumentar que, na prática, nada disto é muito relevante até porque as pessoas acabam por dar uma utilização “light” aos seus smartphones. Experimente perguntar aos seus familiares e amigos que aplicações usam nos seus smartphones e a resposta seré provavelmente a mesma: usam o browser para aceder à Internet, o email, o Facebook, eventualmente o Twitter também, e tiram fotos – muitas fotos. Alguns deles terão já também descoberto que o smartphone consegue substituir perfeitamente o GPS do automóvel e a maioria usa-o igualmente para ouvir música.

Com este perfil de utilização, um Nokia Lumia com Windows Phone satisfaz não apenas todos os requisitos da maioria dos utilizadores como nalguns casos até os satisfaz melhor do que a concorrência – o Here Drive+ é considerada a melhor app de navegação GPS do género (e é grátis) e o Nokia Mix Radio faz o mesmo pela música.

Contudo, dizer que “satisfaz a maioria” dos utilizadores é o mesmo que dizer que, numa base de milhões de consumidores, muitos e muitos milhares não irão encontrar o que possuem. É o que gosto de chamar “efeito Word”, a partir do processador de texto homónimo da Microsoft: ninguém usa todas as funcionalidades do Word; contudo, o facto de elas estarem lá, significa que o produto consegue abranger virtualmente a totalidade das necessidades de toda a gente.

De resto, não é por acaso que, após anos de produtos concorrentes que até são gratuitos, milhões de utilizadores em todo o mundo continuam a preferir pagar para ter todas as funcionalidades dos produtos que constituem o Microsoft Office.

Outro problema tem a ver com os chamados power users, os utillizadores intensivos da tecnologia. É entre estes grupo que encontramos os jornalistas, bloggers ou simples entusiastas que escrevem sobre plataformas móveis. Ao contrário dos utilizadores normais, estas são pessoas que exploram os seus dispositivos ao máximo e que procuram aplicações específicas para cenários de utilização muito particulares.

No final, são eles que irão escrever os artigos (ou simplesmente aconselhar familiares e amigos) que formam a opinião de milhões de utilizadores – incluindo os que procuram conselhos sobre qual o melhor smartphone a comprar. E já sabemos o que (não) irão aconselhar.

… e o app gap ao contrário

Para utilizadores como eu, que gostam de dispositivos simples de usar e que utilizam sobretudo o email, o Facebook, o Twitter, o GPS e o leitor de música (e a câmara) do smartphone, o Windows Phone é perfeito.

Aliás, há também um app gap ao contrário. As excelentes apps da Nokia são exclusivas da plataforma e a própria Microsoft possui aplicações que não estáo (ainda) disponíveis para terceiros – desde o Office ao Halo:Spartan Assault. Para quem (já) usa o Windows 8.x no computador, há também o bónus de que a interface do PC e do smartphone é semelhante e utiliza as mesmas convenções.

No entanto, o app gap de que falei anteriormente – a dos milhares de pequenas apps e não o da meia dúzia de apps mais mediáticas – não irá fechar-se tão depressa. Joe Belfiore tem razão em dizer que se irá fechar, mas errou na data. Não só não foi em 2013 como dificilmente será em 2014.

 

Quer isto dizer que o Windows Phone nunca estará no mesmo plano dos dois líderes do mercado? Não, penso que isso irá acontecer até mais cedo do que se pensa. A visão da Microsoft dos “três ecrãs e a nuvem” que durante algum tempo não se percebia muito bem como iriia ser concretizada, tem neste momento todas as peças em jogo e, durante 2014, tudo irá contribuir para uma tempestade perfeita, com as interfaces comuns da Xbox 360/Xbox One (ecrã TV), Windows 8.1 (ecrã computador) e Windows Phone 8/8.1 (ecrã dispositivo móvel) a convergir finalmente numa forma única e integrada de interagir com o hardware e as aplicações. E a recente nomeação de Satya Nadella para CEO da Microsoft, um homem até agora responsável pela divisão cloud da empresa, só pode ser uma coisa boa.

Ao contrário de muitos, não creio que a Microsoft tenha chegado demasiado tarde à corrida das plataformas móveis de nova geração. Mas ganhar a massa crítica suficiente para fechar o app gap ainda vai demorar algum tempo mais.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Devolo WiFi Move – uma rede celular em casa!

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Tomei contacto com a tecnologia Powerline pela primeira vez em 2007, quando adquiri uma série de adaptadores devolo dLAN AV lá para casa (semelhantes a estes, mas entretanto descontinuados).

Mal eu sabia que a devolo se iria mais tarde tornar cliente da AEMpress, uma empresa que na altura eu nem sequer ainda tinha criado!

Para quem não sabe, a tecnologia Powerline, de que a devolo é lider europeu, permite criar uma rede de dados funcionalmente semelhante a uma infraestrutura Ethernet através da rede elétrica de qualquer casa, escritório ou apartamento.

Liga-se um dos adaptadores ao router lá de casa e colocam-se outros adaptadores onde quer que precisemos de sinal de rede. Em 2007, as minhas necessidades eram totalmente satisfeitas com adaptadores convencionais, com tomadas RJ45 para ligação de PCs de secretária com cabo. Mas os tempos mudam, as necessidades também e a oferta da devolo diversificou-se para oferecer também conjugação de adaptadores Powerline com pontos de acesso (hotspots) WiFi.

O problema dos pontos de acesso múltiplos

Em 2007, o acesso à Internet em minha casa era feito através da NetCabo (parte do Grupo PT, que mais tarde viria a ser autonomizada e dar origem à ZON), que fornecia apenas modem de cabo para ligação direta a um computador. Hoje, o acesso através da ZON (e de qualquer outro operador) inclui desde logo um router com capacidades de ligação direta de dispositivos por cabo mas também de ligação sem fios, via WiFi.

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No entanto, como o local de instalação do router nem sempre pode ser alterado (por ter de estar junto à entrada de sinal de cabo, fibra ou ADSL e/ou ter de ficar próximo da box ligada ao televisor por exemplo), comprar um kit powerline com um ponto de acesso sem fios continua a fazer sentido. A ideia é ligar um dos adaptadores ao router e o outro adaptador noutro ponto da casa onde já seja difícil apanhar o sinal WiFi do router.

Dependendo do local de instalação, podemos até precisar de mais do que um ponto de acesso – porque a casa é muito grande, porque existem áreas exteriores que pretendemos cobrir, porque temos mais do que um piso…

E aqui começam os problemas. O ecrã ao lado foi obtido a partir do meu Nokia Lumia 820 e mostra um problema típico de quando temos mais do que um ponto de acesso em casa. Neste caso, o ponto de acesso do router da ZON chama-se Mirante (longa história, não perguntem) e tenho um segundo ponto de acesso criado a partir de um hotspot WiFi da devolo, também assinalado no ecrã.

O router está num extremo da casa, logo à entrada; o ponto de acesso WiFi da devolo está no extremo oposto. Contudo, a verdade é que quer o router da ZON quer o devolo, apesar de instalados em extremos do apartamento, dão cobertura total – mas muito fraquinha – no extremo oposto do local onde se encontram, como se pode ver.

O que acontece com o acesso através de dispositivos móveis é que a partir do momento em que se ligam a um ponto de acesso (Mirante, neste exemplo, só com uma “barrinha”), não irão desligar-se e ligar a uma rede mais forte (devolo, aqui com o sinal total). Isto terá de ser feito manualmente.

O ideal seria termos múltiplos pontos de acesso espalhados pela casa e, como numa rede celular, a rede fizesse automaticamente a comutação da ligação para o adaptador com sinal mais forte. Ora é isso mesmo que a tecnologia WiFi Move, da devolo, oferece.

Uma rede celular em casa

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A tecnologia WiFi Move, que a devolo inaugurou nos seus novos adaptadores dLAN® 500 WiFi afastam-na da concorrência porque, pela primeira vez, oferecem uma funcionalidade de cooperação e sincronização que permite efetivamente criar uma rede sem fios contínua e sem quebras de velocidade.

Tal como numa rede celular, cada um dos adaptadores dLAN® 500 WiFi (há kits com um adaptador WiFi, um normal e um WiFi e um normal e dois WiFi) funciona como se fosse uma “célula” e aparece ao dispositivo de acesso como uma rede única e transparente – sempre com o sinal mais forte possível. A devolo chama a este processo automatic phase shift.

O processo de instalação não é mais complicado do que com qualquer outro kit da devolo. Na verdade é até mais simples: uma vez instalado e configurado o primeiro adaptador dLAN® 500 WiFi, basta premir um botão para que cada novo adaptador assuma as definições do primeiro – nome (SSID), dados de encriptação, etc.

Para este novo produto, a devolo redesenhou completamente os pontos de acesso WiFi, tornando-os quase tão pequenos como a tomada elétrica à qual são ligados. A vantagem é que podem ser espalhados pela casa e mesmo assim ficarem praticamente invisíveis. A desvantagem é que o menor espaço físico não permite uma tomada pass-through como noutros produtos devolo com tecnologia WiFi, como é o caso do dLAN 500 AV Wireless + (mas permite manter a porta RJ45).

O tamanho compacto tem também outro “efeito secundário”: o acesso sem fios tem uma velocidade máxima de 150 Mbps contra 300 Mbps do dLAN 500 AV Wireless+, em parte devido à impossibilidade de colocar o mesmo sistema de antenas do seu irmão mais velho (“array” 2x2 MIMO) por manifesta falta de espaço.

Contudo, não julgo que este seja um problema, quando comparado com os benefícios que o sistema tem, oferecendo uma cobertura de rede sem fios doméstica muito mais vasta e sem falhas. E para quem já tem um sistema dLAN 500 AV Wireless+, a devolo já indicou que irá lançar em breve um novo firmware que permitirá dotar também a estes adaptadores da tecnologia WiFi Move.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Xbox One e o futuro das consolas

Anúncio oficial da Xbox One (21 de Maio de 2013)

O anúncio, ontem, da nova geração Xbox, suscitou as habituais reações da Internet – entre o hype, a desinformação e o “fanboyismo” pró e contra. Ou seja, mais ou menos aquilo a que assistimos após o anúncio da PS4, no passado dia 20 de Fevereiro…

Sobre o assunto, ocorrem-me algumas coisas, nem todas óbvias. Já lá vamos mas, entretanto, vale a pena começar por dizer que o dia de ontem foi tanto de “revelações” como de interrogações sem resposta.

A Microsoft criou uma FAQ onde são explicadas algumas coisas mas onde muitas ficam por esclarecer. Como garantir que a consola irá poder correr jogos usados mas sugerindo que haverá um “mas” – ou seja, a forma como isto poderá ser feito está ainda por explicar; ou afirmando que a consola não precisa de estar “sempre ligada à Internet” mas, ao mesmo tempo que “precisa” de ter essa ligação.

Outros pontos que não estão (ou não estavam, no momento em que escrevo isto) nesta FAQ foram entretanto esclarecidos, como o facto de o disco rígido da consola não ser amovível (o da Xbox 360 era), mas ser suportado armazenamento externo o que não só vai a dar ao mesmo como é ainda melhor, porque os discos da Xbox 360 eram (são) extremamente caros.

Três ecrãs e a cloud

Mas isto são peanuts. É giro para o pessoal se entreter mas é perfeitamente acessório. O que é então fundamental? O fundamental, quanto a mim, é perceber a forma como a Xbox One se integra na estratégia da Microsoft de “três ecrãs e a cloud” de que Ray Ozzie falou pela primeira vez faz precisamente este mês… quatro anos!

Ray Ozzie e a estratégia da Microsoft que agora começa a fazer sentido.

Nessa altura não era claro como é que a Microsoft pretendia implementar esta estratégia. A empresa não tinha ainda lançado o Windows Phone (seria apresentado no MWC em Fevereiro de 2010); a Xbox 360 era à data pouco mais do que “apenas” uma consola de jogos; o Windows 7 estava ainda um pouco longe (foi lançado a 22 de Julho de 2009 e disponibilizado ao público em geral no final de Outubro do mesmo ano); e a infraestrutura de cloud da Microsoft estava também ainda numa fase incipiente.

Fast Forward para Maio de 2013 e o que temos? Um sistema operativo (Windows 8) que está rapidamente a convergir para se tornar numa plataforma unificada e escalável capaz de servir diferentes classes de dispositivos (e de “ecrãs”) desde o pequeno telemóvel, ao tablet (categoria inexistente em 2009!), passando pelo PC mais tradicional e acabando… no televisor. E uma infraestrutura de cloud (quer ao nível do hardware, quer dos serviços que suporta) que ombreia com o que de melhor o mercado oferece.

A ironia é que quando a Xbox 360 surgiu, no final de 2005, a Microsoft posicionou-a firmemente como uma consola de jogos para jogadores. De resto, essa foi uma das razões encontradas para justificar a ausência de um leitor Blu-ray ou HD-DVD (este último, disponível apenas como opção) e posicionar o equipamento face à PS3 de uma Sony que, assumidamente, pretendia que a sua PlayStation fosse mais do que apenas uma consola de jogos.

Mas ao longo da carreira da Xbox 360, a Microsoft começou cada vez mais a reposicioná-la como sistema multimédia completo, acrescentando serviços e funcionalidades que a colocavam no centro da sala com o objetivo de servir mais do que os jogadores da família.

O futuro da nova geração

Quem tiver paciência para ver com a atenção a apresentação de ontem notará que houve muito mais espaço dedicado a explicar as funcionalidades da consola que não têm a ver com jogos e relativamente pouco no que diz respeito a jogos.

Creio que a explicação para isto tem um pouco a ver com o timing – a E3, onde a Microsoft irá certamente permitir aos jogadores o primeiro contacto real com a consola, está a pouco mais de duas semanas de distância – mas também com a própria filosofia da Xbox One. Se em 2009 a Microsoft fazia questão em dizer que tinha uma consola para os gamers, agora faz questão de afirmar a polivalência da nova proposta: continua a ser para gamers, mas é muito mais do que isso.

Aquilo que vi até agora – e que foi o que todos nós vimos ontem no vídeo de apresentação, pois não tenho qualquer inside information sobre isto – não permite tirar conclusões definitivas sobre se a Xbox One será vista como um compromisso por parte dos jogadores mais hardcore ou se, pelo contrário, será suficiente para agradar a todos.

Alguns dos pontos negativos, como é caso da Xbox One não correr jogos da Xbox 360, podem também ser vistos como positivos: significa que a consola não tem complexidade nem os custos adicionais para suportar uma funcionalidade que, passado uns meses, já ninguém se lembra – como aliás aconteceu com a geração corrente, em que a retro-compatibilidade começou por ser um argumento de venda e acabou por ser abandonada ao longo do tempo quer pela Sony, quer pela Microsoft.

Já outras vertentes do desenvolvimento da consola deixam imensas interrogações. Por exemplo, o facto de a cloud da Microsoft poder ser usada pelos programadores para correr algumas funcionalidades, libertando assim capacidade de processamento interna parece-me extremamente promissora, mas o mais certo é começarmos a ver essa possibilidade a ser explorada nos jogos de segunda geração e não nos que irão estar disponíveis no lançamento. Outro aspeto potencialmente interessante: se o sistema operativo da consola é na verdade uma versão do Windows 8, será curioso ver como (e se) isso será rentabilizado na criação de versões do mesmo jogo para PC e plataformas móveis.

Perguntas (ainda) sem resposta

Claro que no final, por muito que a Xbox One seja mais do que uma simples consola, será a sua capacidade de correr jogos de nova geração – e a disponibilidade de uma biblioteca de jogos apetecível – que selará o seu destino.

No entanto, tal como se viu na geração corrente, estas consolas (a Xbox One e a PS4) não estão numa corrida dos 100 metros, mas numa maratona. As vendas nos primeiros meses serão boas para fazer manchetes dos blogs mas não serão indicativas do sucesso a longo prazo da consola.

É preciso olhar para além do nome (irrelevante), da estética da consola (idem) ou até das suas especificações de hardware (ibidem) para encontrar o que irá ser importante no arranque comercial da Xbox One: que jogos estarão disponíveis no lançamento? Quanto irá custar? Como será a gestão dos jogos em 2.ª mão? Como funciona caso eu não tenha uma ligação à Internet?

Para quem está fora dos EUA há ainda mais questões, porque muitos dos serviços disponíveis para os utilizadores norte-americanos não são acessíveis para o resto do mundo – e certamente é esse o caso no que diz respeito aos consumidores portugueses.

Contudo, vou até mais longe: a esmagadora maioria dos serviços disponíveis na Xbox, incluindo os que estão disponíveis em todas as geografias, como o YouTube ou o Internet Explorer, só podem ser usados por quem pague uma assinatura Xbox Live Gold. E isto é muito difícil de engolir por quem quer que já tenha pago algumas centenas de euros numa consola.

Neste sentido, uma das ideias que têm sido avançadas (mas até agora não confirmadas) de que uma das formas de pagar a Xbox One poderá ser através de uma subscrição – um preço reduzido em troca de compromisso de assinatura do serviço Xbox Live Gold por um determinado período de tempo – parece-me que faria sentido.

Voltarei ao assunto após a E3 e quando a Microsoft tiver mais respostas para estas perguntas. Entretanto aqui fica o que gostei e não gostei sobre a Xbox One baseado no que vi ontem na apresentação.

Gostei
Da estética
Das especificações
Do novo Kinect e do facto de fazer parte da consola
Das possibilidades abertas pela cloud

Não gostei
Da ênfase em serviços que não sei se/quando estarão disponíveis em Portugal
De não ter ainda visto nada de especial em termos de jogos

Fico na dúvida
Preço/modalidades de compra
Jogos em segunda mão
Ligação à Internet

Leituras recomendadas:
http://www.wired.com/gadgetlab/2013/05/xbox-one/
http://winsupersite.com/xbox/xbox-one-preview
http://gizmodo.com/xbox-one-all-the-nerdy-details-you-dont-know-yet-509381624

sábado, 16 de março de 2013

Nokia Lumia 820: um Lumia 900 revisto e melhorado

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Quando no ano passado adquiri um Nokia Lumia 900 sabia já duas coisas: que até ao final de 2012 a Nokia iria lançar novos Lumia com Windows Phone 8; e que o meu Lumia 900 só poderia receber uma atualização para Windows Phone 7.8 e não para WP8.

Mas o smartphone que usava na altura estava a dar as últimas e, de qualquer forma, a nova geração Lumia iria demorar a chegar às lojas portuguesas. Na realidade, estou já a usar o meu Lumia 900 há cerca de 9 meses e só agora os novos Nokia com Windows Phone 8 começaram a ficar disponíveis nos diferentes operadores.

Inicialmente, hesitei um pouco entre o Lumia 800 e o 900, porque pensei que este último podia ser demasiado grande. Mas estou satisfeito pela opção. Contudo, acho que o Lumia 920 está claramente fora do tamanho que considero razoável num smartphone. De facto, olhando para os novos Nokia acho que o Lumia 820 é efetivamente a verdadeira atualização do 900 – apesar da referência numérica sugerir o contrário.

O Lumia 920 é o upgrade do 900 no mesmo sentido que um BMW Série 7 constitui um upgrade face a um Série 5. Mas eu gosto do Lumia 900, pelo que o que procuro – a prazo – é uma atualização dentro da mesma gama. E o Lumia 820 é como um novo BMW Série 5 face ao modelo do ano anterior.

Melhor, pior, diferente

Devo ao Luís Mateus, da CiGlobalmedia (agência que tem em Portugal a conta da Nokia) a oportunidade de testar o Lumia 820 durante cerca de duas semanas. Contactei-o no sentido de tentar acelerar a atualização do meu Lumia 900 para o Windows 7.8 e, palavra puxa palavra, acabou por me propor testar o 820, desafio que de imediato aceitei.

Usei o Lumia 820 como o meu telefone principal durante o tempo de teste. Configurei as contas de email, o acesso às redes sociais, instalei as aplicações. No final da experiência penso que fiquei como uma boa ideia sobre o que ganhei e perdi por não ter esperado pelo 820 e ter optado no Verão passado pelo 900.

O Nokia Lumia 820 tem um ecrã do mesmo tamanho e da mesma resolução do Lumia 900, pelo que a transição de um para o outro é feita de forma natural. Mas a abordagem ao design e construção são totalmente diferentes. Enquanto o Lumia 900 possui o famoso desenho unibody em policarbonato (que nesta nova gama apenas encontramos no Lumia 920), a Nokia optou por uma abordagem diferente no Lumia 820 (e nos restantes membros) que tem vantagens (muitas) e desvantagens (algumas).

Para começo de conversa, o corpo do Lumia 820 é marginalmente mais pequeno do que o do Lumia 900 – a largura é a mesma mas a altura é um pouco menor. Em vez da construção totalmente monolítica do seu antecessor, o Lumia 820 opta por um chassis capaz de receber diferentes tampas, as quais podem não apenas ter várias cores como até diferentes funcionalidades (uma delas integra a capacidade de carregar a bateria por indução, sem fios, como acontece de série no 920).

O facto de o telemóvel ter uma tampa oferece várias vantagens. A primeira é que em vez de termos de escolher à partida qual será a cor do nosso novo smartphone e não a podermos mudar, aqui é possível comprar numa cor mas mudá-la depois à nossa vontade.

Além disso, a tampa permite acesso à bateria amovível, o que é, para mim, algo de que sinto falta no Lumia 900: gosto de saber que posso trocar de bateria quando for necessário ou até trazer comigo uma bateria adicional caso seja preciso estar fora de uma tomada de corrente (ou porta USB) durante muito tempo. Sob a bateria encontramos também outra funcionalidade que considero uma clara vantagem não só sobre o Lumia 900 mas também sobre o 920: um leitor com suporte para cartões microSD até 64GB. Ou seja, apesar de o Lumia 820 ter “apenas” 8GB internos (face aos 16GB do Lumia 900 e dos 32GB do Lumia 920), estes podem ser expandidos até um total de… 72GB! O que é ideal para quem gosta de usar o telemóvel para tirar fotos e gravar vídeos (o que não é o meu caso) e/ou para ouvir música. (Um outro membro da família Lumia, o 720, conjuga um design unibody com leitor de cartões, embora não tenha bateria removível)

Por outro lado, as tampas da Nokia, uma vez colocadas no Lumia 820, não parecem… tampas. O telemóvel fica simplesmente com outra cor, nunca dando a ideia de que foi colocado algo a mais. A tampa fixa-se solidamente ao chassis e, apesar disso, pode ser removida com facilidade (apesar do que pode ter lido em contrário por aí).

Tudo isto são para mim vantagens. A (única) desvantagem? Reconheço que voltar novamente para o Lumia 900 é uma experiência táctil diferente. O 900 parece mais sólido, mais uma peça especial. Nesse sentido, o 820 é claramente mais convencional. Contudo, entre um e outro, optaria sem dúvida pelo 820 dadas todas as vantagens que referi.

Mais rápido

O Lumia 900 com Windows 7.8 é um telemóvel rápido, apesar de ter um processador single core a 1,4 GHz. O sistema operativo é rápido e fluído mas em algumas aplicações e jogos percebe-se que se houvesse maior capacidade de processamento não se perdia nada. Nesse sentido, o 820 está de facto um passo mais à frente, com 1 GB de RAM (512 MB no 900), processador dual core a 1,5 GHz e um sistema operativo (o Windows Phone 8) que dele tira partido.

Tudo é mais rápido e onde se nota sobretudo a diferença é no acesso à Internet e em algumas aplicações que requerem maior processamento gráfico. Apesar de o 820 poder tirar partido das redes 4G (o 900 é só compatível 3G), testei-o apenas sobre 3G e WiFi e a diferença é significativa. É difícil saber se a maior velocidade se deve ao sistema operativo, ao processador ou à nova versão do Internet Explorer, mas é irrelevante: o que é verdade é que é mais rápido.

O Windows Phone 8 oferece mais desempenho também em termos de maior capacidade multitarefa. Isto é algo que na maior parte dos casos não se nota mas, quando quando se nota, percebe-se a vantagem. É o caso do Nokia Drive (rebatizado Here), que agora nunca deixa de funcionar mesmo quando se recebe um telefonema. No caso do Windows Phone 7.x, quando se recebe uma chamada, o software de navegação continua a correr em segundo plano mas a sua operação é efetivamente suspensa; as instruções de navegação param e demora depois alguns segundos a retomar o seu funcionamento porque tem novamente de encontrar os satélites de posicionamento. No Lumia 820, o Nokia Here nunca deixa de funcionar, mesmo quando fica em segundo plano, pelo que a navegação nunca é interrompida.

Outras funcionalidades

O Nokia Lumia 820 tem, face ao Lumia 900, a vantagem do Windows Phone 8. Contudo, pelo menos para já, a diferença de funcionalidade não é muito diferente da que já tenho no Windows Phone 7.8. É verdade que existem muitas mais funcionalidades, mas não são funcionalidades que tenham muita importância para mim e para a forma como uso o smartphone.

No entanto, a prazo existem claramente vantagens em ter uma máquina com WP8 em vez de WP7.8, quanto mais não seja porque uma nova geração de aplicações irá tirar partido das capacidades adicionais da nova versão do sistema operativo e, pouco a pouco, quem ficou pela versão anterior irá sentir que está a perder o comboio para um novo mundo de apps que lhe está a passar ao lado.

Há outras vantagens no Nokia Lumia 820 face ao Lumia 900 que têm apenas a ver com o hardware, como é o caso da câmara. Mas como já escrevi a propósito do Lumia 900, a melhor câmara do melhor telemóvel dará sempre resultados inferiores à mais básica das câmaras compactas, pelo que esta é uma área que não me interessa particularmente.

Já outros pequenos tweaks de hardware parecem não ter tanta importância mas acabam de ser muito relevantes. É o caso da porta micro USB que passou do topo para a base, o que facilita a ligação do telemóvel a bases com conectividade e/ou capacidade de carregamento da bateria.

Conclusão

A vários níveis, o Nokia Lumia 820 é tudo o que eu gostava que o Nokia Lumia tivesse e não tem: suporte para redes 4G, leitor de cartões, bateria removível, fácil personalização, sistema operativo de nova geração. Só fica mesmo a perder em termos da construção, mas tenho de reconhecer que ou temos uma coisa ou outra – o que gosto na construção do Lumia 900 é precisamente o que o impede de ter bateria removível e poder ser facilmente personalizado! Portanto, ou temos uma coisa ou outra.

Para a forma como eu uso um telemóvel e tendo em consideração as funcionalidades a que dou mais importância, o Nokia Lumia 820 é claramente uma atualização para melhor do Lumia 900. Pertence à mesma gama, mas está bem mais à frente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Windows 8 e o futuro táctil *

Acabo de escrever um livro sobre o Windows 8, o meu quarto livro sobre o Windows – o primeiro foi em 2001, sobre o Windows XP. O que posso partilhar convosco é que não foi uma experiência fácil.
Em circunstâncias normais, escrever um livro sobre um sistema operativo que uso todos os dias (sou utilizador do Windows desde a versão 1.0) não costuma ser difícil. Mas o Windows 8 é um caso diferente. Primeiro, porque não pude usar a minha máquina de trabalho normal; depois porque, ironicamente, quanto mais conhecemos o Windows, maior será o impacto e a sensação de estranheza que temos quando nos confrontamos pela primeira vez com o Windows 8. Não vou desperdiçar as próximas linhas especulando sobre o que será o ritmo da adopção do Windows 8, o futuro da Microsoft e como ambas as coisas estão (ou não) ligadas. A Web está cheia de artigos desses.
O que vos trago é a minha experiência de utilização do Windows 8 desde que saiu a primeira versão beta pública – há mais de um ano – e desde que tive acesso à versão final, em Agosto passado. E claro que vale sempre a pena recordar duas coisas: que isto é a minha opinião; e que a minha empresa tem a Microsoft como um dos clientes. Dito isto, vamos então ao que interessa.

Sempre que a Microsoft lança uma nova versão do Windows há uma pequena percentagem de pessoas (entre elas eu e, provavelmente, vocês) que vai a correr instalar a actualização no seu PC. Mas a maioria das pessoas toma apenas contacto com a nova versão no momento de comprar um novo computador. Ora, o Windows 8 é a primeira versão do Windows desde a 1.0 que, na maioria dos casos, não vale a pena usar para actualizar um PC antigo – a menos que esteja equipado com um ecrã táctil.
Isto porque, como já todos devem ter percebido, o Windows 8 é um sistema operativo com dupla personalidade, que suporta aplicações antigas numa interface (quase) igual à do Windows 7 mas concebido com base num conceito de interface completamente novo e que foi ensaiado inicialmente no Windows Phone 7. Enquanto o Windows 7 era um sistema operativo com um razoável suporte táctil mas tinha sido concebido a pensar sobretudo na utilização com rato e teclado, o Windows 8 é um sistema operativo pensado para utilização com ecrã táctil… e cuja utilização com rato e teclado requer aprendizagem a habituação.
A razão para isto é simples: a Microsoft quer ter uma mesma interface (e, de certa forma, até o mesmo sistema operativo) nos smartphones, nos tablets, nos computadores e até na televisão lá de casa (através da Xbox 360). E, para isso, tinha de reinventar o Windows.
Aquilo que eu senti com o Windows 8 é o que me parece ser a experiência da maioria dos chamados “power users”: o primeiro impacto causa uma tremenda estranheza e frustração. Contudo, à medida a que nos habituamos, tudo se torna mais natural e até mais rápido. Utilizadores menos habituados ao Windows tenderão a adoptar mais facilmente a nova interface do Windows 8, mesmo em equipamentos sem ecrã táctil – a facilidade com que a minha filha mais nova, que tem 9 anos, usa o Windows 8, é um bom exemplo disso.
De certa forma, lembra-me o que sucedeu há uns anos com o Office 2007 e a troca dos tradicionais menus pelo chamado “Friso”: os “power users” foram os que mais se queixaram porque quem tinha apenas um conhecimento superficial de utilização do Office descobriu que conseguia fazer muito mais com a nova Interface; e, passado algum tempo, já ninguém se queixava – nem mesmo os “power users”.
O que se está a passar com o Windows 8 é muito semelhante: as primeiras reviews (dos jornalistas e bloggers, na sua grande maioria “power users” de Windows) deixam transpirar a luta contra as novas convenções da interface e a frustração de descobrir que nada funciona como era suposto; mas o entusiasmo dos utilizadores comuns, que transparece em comentários nos fóruns e até nas inesperadas enchentes nas lojas para comprar tablets com Windows 8, deixa antever que a revolução da Microsoft afinal pode ter muito mais adeptos do que se esperava.
Pessoalmente, continuo céptico sobre as vantagens de usar o novo Windows numa máquina sem ecrã táctil com Windows 7. Mas a verdade é que o Windows 8 não é um sistema operativo para o passado e, em muitos casos, nem sequer para o presente: é o primeiro sistema operativo da Microsoft apontado certeiramente para o futuro.
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* Artigo publicado originalmente no i-Tech.