terça-feira, 4 de agosto de 2015

O último Windows *


O Windows 10 é uma má notícia para todos os que ao longo dos últimos anos têm vaticinado que “a Microsoft está acabada”. Felizmente, é uma boa notícia para todos os outros…A propósito do lançamento do Windows 8, o então CEO da Microsoft, Steve Ballmer, disse que estávamos na presença de um lançamento tão importante para a empresa como o fora o Windows 95.

Três anos depois, a profecia não cumprida de Ballmer vai tornar-se realidade com o Windows 10. E, muito embora tudo dependa da forma como a estratégia da Microsoft for executada (no mundo dos negócios, mas sobretudo no da tecnologia, a execução é tudo), estou disposto a acreditar que estamos – finalmente – na presença de um lançamento ao nível do que foi o do Windows 95, há quase 20 anos.
 
Há boas razões para isso, mas deixo-vos aqui apenas cinco: 
  1. A estratégia da atualização gratuita. A Microsoft sabe que o tempo urge e que quanto mais depressa criar uma grande base instalada de Windows 10 mais depressa irá convencer os criadores de software – desde pequenos programadores solitários até às grandes software-houses – a subirem a bordo, melhor. Por isso, a ideia de oferecer o Windows 10 a quem quer tenha hoje o Windows 7 ou 8/8.1, inclusive, só foi surpreendente para quem não percebeu que a Microsoft teria a perder se fizesse o contrário muito mais do que os dólares que deixará de ganhar com esta abordagem.
  2. Um só Windows. Ao contrário da Google (Android/Chrome OS) e da Apple (MacOS/iOS), a Microsoft tem uma estratégia de um só sistema operativo para todos os dispositivos. Pode não parecer importante, mas é, nomeadamente porque permite as razões 3. e 4.
  3. As apps universais. A pressa da Microsoft em que todos adotem o Windows 10 é tanto mais crítica quanto esta é a versão que irá fazer pelo estratégia mobile da empresa o que o Windows 8 devia ter feito mas não fez. É que enquanto aquele pretendeu unificar a interface do Windows em todos os dispositivos, o Windows 10 leva a ideia mais longe: mais do que a interface, será o mesmo Windows que teremos em desktops, notebooks, tablets, smartphones, na Xbox One e até na Internet of Things, com o suporte para Raspberry Pi. O que é que isto significa? Significa que quem programa pode desenvolver uma aplicação que funciona tão bem num computador de secretária como num smartphone sem que tenha de gastar o dobro dos recursos no seu desenvolvimento.
  4. Continuum. O Windows 8 foi claramente um sistema operativo à espera do hardware que dele tirasse partido. Mas, nos últimos três anos, os principais fabricantes mundiais trouxeram-nos finalmente máquinas “convertíveis” que conjugam da melhor forma funcionalidades de um notebook com os aspetos práticos de um tablet. Uma funcionalidade do Windows 10 chamada Continuum permite que estas máquinas funcionem com o familiar desktop quando estão a ser usadas com um teclado físico e como um tablet com a chamada nova “interface moderna” quando se libertam do teclado. Mas a mesma funcionalidade irá permitir ainda – numa nova geração de dispositivos móveis que chegará apenas no Outono – que um smartphone possa ser ligado a um teclado, rato e monitor e que as suas “apps universais”, como o novo Office 2016 possam ser usadas como se de repente tirássemos um desktop do bolso.
  5. Windows como um serviço. É possível que a ideia mais revolucionária de todas não seja o Windows 10 em si mesmo, mas o facto de a Microsoft aproveitar esta oportunidade para transformar a forma como olhamos para o sistema operativo mais popular de sempre: esta é provavelmente a última versão do Windows. A partir de agora, o Windows passará a ser atualizado continuamente, mas não como até agora. Por um lado, estas serão atualizações automáticas e mandatórias (só os utilizadores empresariais poderão impedir que o Windows seja atualizado automaticamente); por outro, a Microsoft não se limitará a oferecer atualizações para correção de bugs e problemas de segurança. Pelo contrário, o Windows receberá continuamente melhorias que vão desde novos drivers até mais e melhores funcionalidades. E deixa de fazer sentido pensar em novas versões.
Com o que atrás ficou dito, poderá parecer que a Microsoft desistiu simplesmente de ganhar dinheiro com o Windows, de “mugir” aquela que foi até hoje a sua principal “cash cow”. Afinal, prepara-se para o oferecer a milhões de utilizadores em todo o mundo – estima-se em mais de mil milhões o potencial de máquinas que podem receber esta atualização ao longo dos próximos doze meses – e para deixar de vender upgrades.
 
Acontece porém que desde sempre que a maior parte das pessoas não compra novas versões do Windows: na esmagadora maioria dos casos, os utilizadores acedem a uma nova versão do Windows comprando… um computador novo. E, pelo menos por enquanto, não há notícias de que a Microsoft tenha decidido oferecer o Windows aos fabricantes.
 
Mas qualquer que seja a estratégia futura, uma coisa é certa: esta já não é a mesma Microsoft que lançou o Windows 8. Esta é a Microsoft que lançou o último Windows.
 
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* Artigo publicado originalmente no Wintech

segunda-feira, 22 de junho de 2015

It's the interface, stupid! *

A relação do Windows Phone com o mercado móvel tem mais semelhanças com a Apple do que pode à primeira vista parecer…


Em meados de 1994 estava eu a trabalhar no Público quando foi decidido criar o suplemento Computadores, para o qual eu escrevi até deixar o jornal em 1995 para lançar a Exame Informática.

Devido às circunstâncias da sua criação, a redação do Público era totalmente baseada em computadores Macintosh, nomeadamente Macintosh II e Macintosh Classic (sim, os tudo-em-um de 9’’!). A maioria das pessoas adorava os seus Macs; muitos tinham com eles uma relação de amor-ódio; e outras (como eu, admito), odiavam-nos.
Mas trava-se, acima de tudo, de ferramentas de trabalho. Numa era pré-Internet, eram pouco mais do que máquinas de escrever sofisticadas. Não me lembro de correr lá nada mais do que o Word e de aceder à rede.

Apesar de poder dizer que “I’m a PC”, recomendei por diversas vezes a aquisição de um Macintosh a quem na redação me vinha perguntar qual a máquina que devia adquirir lá para casa. Tudo depende do dinheiro que se quer/pode gastar e do objetivo a que se destina o equipamento. Mas lembro-me também de um jornalista que decidiu mesmo comprar um PC – um Compaq, penso eu – e que dias depois o foi entregar à loja.
A justificação que deu ficou-me na cabeça desde então. Foi mais ou menos isto: “Se 100 contos [500 euros] é a diferença que tenho de dar para ter a interface do Macintosh, então é isso que vou pagar”.

É bom lembrarmo-nos que estávamos ainda a mais de um ano do lançamento do Windows 95. O Windows 3.11, que era o que se usava nos PCs da altura, estava – admitamo-lo – a anos-luz do que a Apple já oferecia.
Interface, preço e aplicações

Muitos dos argumentos “Mac vs PC” mudaram, mas muitos deles mantêm-se. Na lista do que se mantém está a diferença de preço médio entre o que se paga por um Apple face a um PC com hardware semelhante – sendo que na altura esta diferença era difícil de quantificar, porque os Macintosh usavam processadores Motorola e uma arquitetura diferente, enquanto agora são basicamente PCs com um BIOS diferente.
Um outro argumento recorrente, que hoje é muito menos sensível do que há 20 anos, era o do software disponível: optar por um Mac significava prescindir do acesso a uma biblioteca de software importante. Os Mac eram os preferidos (e continuam a ser) para aplicações de design gráfico, tratamento de imagem e outros nichos (música, por exemplo) mas, para tudo o resto, o PC era intocável.

O facto de alguém, há 20 anos, preferir gastar mais para ter um Macintosh mesmo sabendo que não ia poder correr uma grande parte do software disponível para PCs demonstra bem o quanto a diferença de interface era então significativa – e o quanto era valorizada por quem, podendo pagar a tal diferença de preço, procurava sobretudo um produto fácil de usar.
O Windows Phone

Muitas pessoas hoje perguntam-me porque uso um Nokia Lumia e, ainda sem me deixarem responder, acrescentam logo que “não tem tantas apps como para estes [iPhone ou Android], pois não?”.
Confesso que, mesmo sem nunca ter tido um produto Apple (apesar de ter trabalhado com imensos equipamentos da marca durante vários anos), só agora é que compreendo verdadeiramente a paixão de quem não considera usar algo que não tenha o símbolo da maçã.

É que a resposta à pergunta que me fazem é a mesma que sempre ouvi ao longo dos anos quando perguntava aos meus amigos fãs da Apple (poucos, admito…) porque não tinham comprado um PC. E a resposta era dupla: que a interface do MacOS é muito superior ao Windows [mesmo que isso seja discutível]; e a de que “há muito mais software para Windows, mas eu só uso meia dúzia de aplicações e as que preciso, há para Mac”. Perante isto, de nada vale argumentar – e quanto à diferença de preço, desde que quem paga a chamada “Apple Tax” sinta que está a pagar por algo que vale a pena, ficamos todos felizes.
Acontece que é isto exatamente o que eu digo hoje a quem me pergunta porque insisto em usar o Windows Phone: porque a interface do Windows Phone é muito superior ao iOS [mesmo que isso seja discutível] e porque “há muito mais software para Android e iOS, mas eu só uso meia dúzia de aplicações e as que preciso, há para Windows Phone”.

Claro que existe, depois, uma outra diferença: para eu ter o que quero, não preciso de pagar mais. E assim ficamos todos felizes. ;-)
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* Artigo publicado originalmente no website iClub.PT

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O futuro dos tablets *

O produto que foi considerado como responsável pela morte anunciada do PC está, afinal, a morrer.


         
O lançamento do iPad pela Apple em 2010 criou, praticamente da noite para o dia, uma nova categoria de produto que tomou de assalto o mercado da informática. Mas o êxito instantâneo dos tablets, potenciado pela assimilação do formato por parte dos equipamentos baseados em Android – sobretudo após o lançamento em 2011 da versão 3.0 Honeycomb – não surgiu sem vítimas: o PC, diziam-nos, tinha os dias contados.
Fui dos que nunca percebeu muito bem como é que um dispositivo criado assumidamente para consumir conteúdos poderia substituir equipamentos cujo objetivo consistia em criá-los. Mas não devemos nunca deixar que a realidade se interpunha entre nós e uma boa história…
E, para sermos sinceros, o mercado dos PCs sofreu realmente com a introdução dos tablets. De repente, era possível vermos gráficos de linhas (nada como um bom gráfico para convencer a audiência!) que mostravam uma relação inversamente proporcional entre as vendas de tablets em crescendo e as vendas de PCs a cair. O futuro? Fácil: bastava continuar a puxar ambas as linhas na direção para a qual apontam e, dentro de (poucos) anos, garantiam-nos, o PC está morto.

A morte… do netbook

E, realmente, houve vítimas mortais. De forma fulminante, o netbook morreu. Acontece porém que este tipo de PC não só foi o único a morrer às mãos do mais popular e sexy tablet, como a sua morte era inevitável.
O formato, inventado pela Asus com o seu EeePC original em 2007, foi também ele pensado para o consumo de conteúdos. O netbook, diziam-nos, não se destinava a substituir nenhum outro tipo de PC mas sim a complementá-lo; a ideia não era ter uma máquina para criar grandes textos ou correr enormes folhas de cálculo, mas sim para navegar na Web, consultar o email e pouco mais. Ou seja, exatamente aquilo para o qual o tablet foi criado!
A razão pela qual os tais gráficos mostravam uma correlação inversa perfeita entre vendas de tablets e queda de vendas de PCs é que estes PCs eram na verdade, na maioria dos casos, netbooks – o produto que o tablet veio substituir.
O problema com os cálculos dos mais pessimistas (ou otimistas, consoante o ponto de vista) é que no mundo da informática é extremamente arriscado realizar projeções a longo prazo; o mercado muda demasiado depressa e o que é hoje verdade deixa de o ser amanhã. Basta que para tal surja um produto que mude as regras do jogo – tal como o tablet o fez.

O efeito “phablet”…

E, neste caso, esse produto chama-se “phablet” (phone+tablet). O pioneiro Samsung Note, lançado em 2011 na IFA com um ecrã de 5,3’’, recolheu quantidades idênticas de indiferença e críticas negativas (“demasiado grande para ser prático como telefone e demasiado pequeno para fazer sentido como um tablet”, garantiam-nos) sendo poucos os que na imprensa se mostraram realmente entusiasmados com a proposta, mas o público gostou e acabou por determinar uma tendência no mercado que alterou – novamente – as regras do jogo.
O efeito do Samsung Note não funcionou da mesma forma que o Apple iPad. Enquanto o último foi um sucesso instantâneo, o primeiro valeu sobretudo pelo que representa e pela tendência criada, mais do que pelo seu próprio êxito comercial.
O que o Note fez foi abrir as portas para a tendência – que ainda se mantém – de smartphones com ecrãs cada vez maiores. E os dados do mercado indiciam que foi esta apetência por equipamentos móveis com ecrãs de grandes dimensões uma das responsáveis pela erosão da quota de mercado da Apple.
É evidente que, da mesma forma que o Windows, depois de representar mais de 90% do mercado mundial de PCs, só podia perder quota de mercado, também o iPhone dificilmente conseguiria segurar a sua posição hegemónica, obtida quer por mérito próprio quer pela lenta reação do mercado.
Mas estou convencido de que, tanto ou mais do que o baixo preço dos terminais Android, foi a possibilidade de escolha entre inúmeros modelos de smartphones com ecrãs de grandes dimensões que permitiu a rápida ascensão dos equipamentos com o sistema operativo da Google.

… e a morte anunciada do tablet

Num mercado em que um smartphone com ecrã de 5’’ já é considerado normal e o termo “phablet” caiu em desuso (o ecrã de 5,5’’ do iPhone 6 Plus é maior que o do Samsung Note original!), não é o PC que está em risco de desaparecer: é o tablet.
O primeiro sinal de alarme surgiu no início de 2014, quando foram conhecidos os números referentes ao ano anterior. Já em 2013 era claro que o crescimento dos tablets estava a desacelerar e que, depois da hecatombe dos netbooks, o mercado dos PCs dava sinais claros de recuperação.
O que as análises aos números demonstravam é que não só o ritmo de adoção dos tablets estava a ser muito mais lento do que o inicialmente esperado – ainda por cima tão pouco tempo depois da introdução do novo formato – como também o ritmo dos upgrades de equipamentos era muito menor do que, por exemplo, no mundo dos PCs.
Esta realidade parecia ser o resultado da conjugação de dois fatores: algum desencanto dos utilizadores, a quem tinha sido vendida a ideia de que o tablet podia substituir todos os outros equipamentos da sua vida digital; e a ideia de que um upgrade para um novo tablet não trazia grandes vantagens sobre o produto que já se possuía.
A chegada dos números referentes a 2014 permite-nos já tirar conclusões mais concretas. Confirma-se a tendência para uma forte desaceleração do crescimento dos tablets, a venda de PCs recupera de forma muito clara e… as vendas de smartphones com ecrãs de formato igual ou superior a 5’’ dispara de forma explosiva.
E é neste último ponto que se joga o futuro dos tablets. Inicialmente, o tablet andava connosco como complemento ou até mesmo substituto do notebook. Contudo, se temos também no bolso um smartphone de 5,5’’ ou até mesmo de 6’’, fará ainda sentido carregarmos também um tablet?
Na prática, um smartphone faz tudo o que precisamos e ainda mais – porque são o nosso principal dispositivo de comunicação e porque as suas câmaras digitais são vastamente superiores às dos tablets (e já nem falo na figura ridícula que fazem os utilizadores destes quando os empunham para tirar fotos…). Para milhões de utilizadores que não conseguem passar sem o seu smartphone no bolso, o tablet deixou de fazer sentido.
De repente, o nosso mundo digital clarificou-se novamente: temos o notebook (o PC, o Mac) para criarmos conteúdos, para trabalhar; e temos o smartphone para tudo o resto.
O tablet poderá ainda encontrar o seu lugar como máquina de jogos barata para os membros mais novos da família, como controlo remoto do equipamento audiovisual, como leitor de e-books… Mas o que não será é o dispositivo que substituirá o PC porque, em tudo o resto, já foi ele próprio substituído.
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* Artigo publicado originalmente no website iClub.pt

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

OBD-II – O automóvel "ligado" *

Praticamente todos os fabricantes de automóveis oferecem hoje uma panóplia de equipamentos que permitem a interligação com dispositivos móveis, como ou sem fios, ou até mesmo a ligação à Internet para todos os ocupantes do veículo.
 
Isso tudo é muito bonito, mas o mais interessante seria a possibilidade de nos ligarmos ao cérebro eletrónico do nosso carro de forma a termos acesso a diagnósticos e dados do seu funcionamento em tempo real.
 
Acontece que isso é possível em praticamente qualquer automóvel: todos os veículos produzidos para o mercado dos EUA desde 1996 e todos os automóveis a gasolina (desde 2001) e diesel (desde 2003) à venda na Europa estão equipados com uma interface normalizada designada OBD-II (iniciais de On Board Diagnostics.
 
Durante anos, esta interface foi apenas usada pelas oficinas para “ligar o carro à máquina” e realizar diagnósticos. Contudo, desde há algum tempo que qualquer pessoa pode fazer o mesmo de forma muito simples e barata: basta adquirir um pequeno dispositivo designado ELM327 que permite ler e interpretar os dados disponibilizados pelo veículo através da interface OBD-II e transmiti-los via Bluetooth ou Wi-Fi para um computador ou smartphone.
 
Melhor ainda, estes dispositivos podem ser adquiridos na Internet por menos de 10 euros! Os dispositivos ELM327 mais baratos e básicos limitam-se a ler os códigos de erro, mas mesmo aparelhos de apenas cerca de €20 podem incluir mais funcionalidades e sensores adicionais que dão uma ideia muito abrangente do desempenho do veículo.

Plug & Play
Tudo o que precisa de fazer para poder diagnosticar problemas no seu automóvel sem ter de recorrer a dispendiosos serviços de uma oficina é determinar onde é que o seu veículo tem a interface OBD-II com uma pesquisa via Google tipo “OBD-II [nome do seu carro]” ou através de websites especializados, como é o caso de  www.outilsobdfacile.com.
 
Dependendo do veículo, a tomada tanto pode estar facilmente acessível dentro do porta-luvas como junto à caixa de fusíveis ou por detrás de uma tampa de plástico no painel de instrumentos. De qualquer forma, não deverá ser difícil encontrá-la e aceder-lhe.
 
Uma vez localizada a tomada, é só ligar o dispositivo ELM327, o qual se emparelha com qualquer smartphone ou computador via Bluetooth. Basta então escolher uma app entre a infinidade de programas que existem em qualquer app store para este efeito (sim, até para Windows Phone…) e a magia acontece!
 
Uma vez que os códigos de diagnóstico recolhidos pelo dispositivo ELM327 podem ter significados diferentes consoante a marca, modelo e até ano do veículo, a app recorre a bases de dados na Internet para determinar o seu real significado. Algumas apps limitam-se a ler os dados e a interpretá-los, mas há outras que vão ao ponto de oferecer resultados em tempo real, enquanto conduz – o que é possível caso a posição da interface OBD-II o seu carro e o tamanho do dispositivo ELM327 que adquiriu permitam a sua instalação permanente.
 
Uma das vantagens de uma instalação permanente é que pode depois usar apps que façam um registo do que se passa com o veículo ao longo de um período de tempo, o que é crucial para conseguir detetar avarias que se relevem de forma intermitente mas que deixam atrás de si um registo sob a forma de códigos de erro.
 
A menos que saiba realmente o que está a fazer, não é aconselhado que decida reparar o seu carro com base nos dados fornecidos através deste sistema, mas pelo menos tem agora uma forma de chegar à oficina já com uma ideia mais concreta do que se passa com o seu veículo, evitando situações menos claras.
 
* Artigo publicado originalmente no website Internext 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O problema dos tinteiros reciclados (e um sítio para os comprar baratos)

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Ontem (dia 5 de Junho) foi o Dia Mundial do Ambiente e, por coincidência, foi também o dia em que chegou uma encomenda que fiz de uma loja online: um conjunto de tinteiros para as minhas impressoras HP Officejet.

E porque é que isto tem a ver com o ambiente? Porque a questão ambiental, nomeadamente dois dos três “R” (“Reutilizar” e “Reciclar” – sendo o primeiro “Reduzir”), é uma das mais usadas para justificar a aposta nos chamados “tinteiros reciclados” para impressoras de jato de tinta.

O problema com as impressoras é que o modelo de negócio dos fabricantes desde há muito que passou a ser semelhante ao da Gilette: propor o hardware ao menor preço possível e recuperar o dinheiro com a venda dos consumíveis. Uma rápida visita a um website português de venda de equipamento informático permite constatar isso mesmo: uma impressora HP Deskjet 2544 custa €65 enquanto um conjunto de dois tinteiros (preto e tricolor) fica por… €37. A partir do momento em que comprar o segundo kit de tinteiros já ultrapassou o valor que pagou pelo hardware!

Não admira por isso que nos últimos anos tenha surgido uma verdadeira indústria de reciclagem de tinteiros. Os preços dos tinteiros reciclados (tinteiros já usados que foram reenchidos com tinta) oscila entre 2/3 e 1/3 do preço dos tinteiros originais, pelo que é fácil perceber porque é que se tornaram tão populares.

O problema dos tinteiros reciclados…

Os principais fabricantes (HP, Epson, Canon, etc.) dão vários argumentos para que os consumidores adquiram suprimentos originais, desde a perda da garantia no caso de avaria durante a utilização de tinteiros que não sejam da própria marca (o que é verdade) até ao facto de que as tintas usadas não têm a mesma qualidade da tinta original (o que também é verdade mas, na prática, a maioria dos utilizadores pouco se importa com isso).

Acontece porém que o principal problema é outro, e bem mais grave: a maioria das impressoras de entrada de gama custa muito pouco dinheiro (quando comparamos com o preço dos tinteiros) porque a tecnologia mais cara e importante – a cabeça de impressão – está no próprio tinteiro!

Ou seja, quando adquirimos um tinteiro novo, estamos praticamente a comprar uma impressora nova. Pode não ser verdade em termos do resto do hardware (motores, roletes, etc.) mas é certamente verdade no que diz respeito à qualidade de impressão. O que nos traz ao verdadeiro problema com a utilização de tinteiros reciclados: o fabricante concebeu o tinteiro com uma cabeça incorporada que não deverá durar muito mais tempo do que o necessário para esgotar a tinta que lá tem dentro. Ao entregarmos um tinteiro (com a respetiva cabeça) a uma empresa de reciclagem para que ela o reencha com tinta, a cabeça (que não foi mexida durante o processo de reciclagem, evidentemente) vai estar a trabalhar para além do ciclo de funcionamento para o qual foi criada.

Na prática, um tinteiro reciclado, mesmo assumindo que usa tinta de qualidade equivalente à da marca, nunca irá imprimir tão bem como um tinteiro normal, pela simples razão de que a sua cabeça já teve de funcionar durante bastante tempo. Quando sabemos que muitas empresas de reciclagem reutilizam também tinteiros que já foram reciclados, o problema deixa de ser apenas saber se o tinteiro vai funcionar com qualidade mas… quando é que irá rebentar dentro da impressora.

… e das cartridges de tinta

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Ao contrário do que sucede com a maioria das impressoras domésticas, as minhas HP Officejet utilizam tinteiros (cartridges) totalmente separados das cabeças de impressão.

Estas cartridges (com a referência HP 88XL) têm uma muito longa duração e normalmente não consumo mais do que um kit por ano em cada uma das minhas duas impressoras.

Contudo, quando é preciso comprar, o valor é significativo: cada um dos tinteiros de cor custa cerca de €25 euros (€75 no total) e o tinteiro de preto, de alta capacidade, fica por €35. Tudo somado, são €110 de tinta “original” sempre que é preciso adquirir tinteiros (um bónus dos tinteiros separados é que pelo menos podemos comprar só o tinteiro de que necessitamos).

Até há pouco tempo, a minha opção tinha sido a de adquirir tinteiros originais a partir da Amazon inglesa. Com os porte gratuitos, um kit de 4 tinteiros ficava por quase metade do que era possível comprar em Portugal. Contudo, agora a empresa voltou a cobrar portes para Portugal e o negócio deixou de ser tão interessante.

Mas, pelo menos, a situação teve o condão de me levar a procurar alternativas. Não consegui encontrar em Portugal cartridges recicladas de substituição HP 88XL. Mas encontrei cartridges compatíveis. A diferença é que as primeiras usam o invólucro original e limitam-se a ser reenchidas com tinta enquanto as segundas são produzidas por empresas independentes para serem compatíveis, mas não usam nenhuma parte do consumível original.

No caso da HP (não sei como é noutras marcas, mas presumo que seja uma situação semelhante), a opção por cartridges compatíveis (por opção a recicladas) tem um risco – nalguns casos é possível que a impressora detete o novo consumível como sendo “incompatível” e se recuse a funcionar. Isto pode acontecer quando se mistura cartridges compatíveis com consumíveis originais da marca, mas também é possível que aconteça com kits compatíveis completos.

Bem, a história já vai longa, mas deixei o melhor para o fim: encontrei um local na Internet onde adquiri cartridges 88XL compatíveis para as minhas Officejet com um preço fantástico e que não me dão problemas de compatibilidade (no dia em que escrevo, imprimi mais de 500 páginas a cores com estes novos consumíveis).

O preço de um conjunto 88XL completo (3 cores + 1 preto), cujo preço de referência em Portugal é de €110? A módica quantia de… €15 euros – já com IVA e já com portes!

A minha experiência é apenas com a referência compatível HP 88XL, mas apontem os vossos browsers para www.theinksquid.com e vejam se encontram alguma coisa que sirva na vossa impressora. Lembrem-se apenas de escolher um produto que seja “compatível” e não “reciclado”. E boa sorte.
P.S.: Não tenho comissão. Piscar de olho

terça-feira, 6 de maio de 2014

Nokia 515: o melhor telemóvel de sempre?

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Quando o Nokia 515 foi anunciado, em 2013, a esmagadora maioria dos comentários e artigos que li foram negativos. Aparentemente, num mundo em que todos parecem gostar do mesmo (vocês sabem do que falo…), a ideia de um telemóvel (não podemos realmente chamar smartphone ao Nokia 515, mas já lá vamos) que custa o mesmo (ou até mais) que muitos Androids ou até Lumias de gama baixa parece não fazer sentido.
Mas faz. Faz porque o Nokia 515 foi criado para preencher um nicho que, sendo provavelmente pequeno, existe: o dos que pretendem um telemóvel de alta qualidade mas que procuram sobretudo autonomia, simplicidade de operação e que desprezam ecrãs tácteis. Um telemóvel com uma câmara fotográfica decente que também possa servidor de leitor de música, mas sobretudo um telemóvel para telefonar, enviar e receber mensagens e… pouco mais.
O mercado está neste momento dividido entre smartphones sofisticados e simples telemóveis (“dumb phones” ou “feature phones”, o que lhe queiram chamar), mas dividido de forma a que cabe aos telemóveis o papel de gama (muito) baixa. Ou seja, quem hoje faz questão de ter um equipamento simples e fácil de usar, com teclado e sem “floreados” tem de se contentar com um dispositivo baratucho produzido em plástico de qualidade duvidosa (há plástico e… plástico!, como o podem comprovar os felizes possuidores de um Nokia Lumia) e com um mínimo de funcionalidades.
O Nokia 515 é um telemóvel 3G dual band simples e fácil de usar mas que oferece uma excelente qualidade de construção com um corpo em alumínio e ecrã protegido por Gorilla Glass de 2.ª geração, resistente aos riscos. A câmara fotográfica é de 5 MP com flash de LED (uma funcionalidade inexistente até em muitos smartphones do mesmo preço). Existe uma versão Dual SIM. Tem leitor de cartões microSD até 32GB. E a bateria é como o coelhinho da Duracell: dura, dura, dura…

Na prática

Há cerca de duas semanas, a Nokia Portugal fez-me chegar um destes telemóveis para testes, para que as minhas impressões iniciais quando soube do produto pudessem ser confirmadas (ou não) na prática.
A sensação inicial quando se pega no telemóvel é o seu peso: uma vez que é produzido sobretudo em alumínio, é mais pesado do que imaginaríamos (101 gramas), mas no bom sentido – aquele tipo de peso que nos faz sentir que estamos na presença de um produto de qualidade.
Ao usar o Nokia 515 com o meu SIM, a primeira coisa que fiz foi transferir os contactos do meu Nokia Lumia 820. Isto é feito de forma muito simples, via Bluetooth, através de uma app adequadamente chamada Transfer, a partir do Nokia 515. O processo é feito em três passos (cópia, confirmação e gravação) e os quase mil contactos do meu Lumia foram transferidos sem problemas em cerca de 5 minutos.
Os meus primeiros smartphones foram um Nokia N80i e um Nokia E75, ambos com sistema operativo Symbian. O Nokia 515 utiliza o Series 40 que, apesar de ser tecnicamente distinto do Symbian, tem uma lógica de utilização e navegação interna muito semelhante, pelo que a sua personalização me pareceu fácil; em poucos minutos já me sentia à vontade a utilizá-lo. Apesar do sistema operativo S40, a verdade é que este “telemóvel” passaria bem por um “smartphone” há apenas alguns anos.

O novo 6310i?

O último telemóvel Nokia que usei e de que ainda guardo grandes saudades foi o 6310i. É tão bom que ainda se encontra à venda novo (NOS – New Old Stock) na Amazon e na eBay por… cerca de 150 dólares! De alguma forma, o Nokia 515 lembra-me o meu saudoso 6310i. É o que eu chamaria de purposeful: tudo no seu desenho transpira funcionalidade. As funções que possui são as que têm de lá estar; as que não tem, não servem o objetivo para o qual foi criado.
E o que é que não tem? Como já vimos, não tem Symbian, mas o mais básico S40. Porquê? Porque o S40 chega para aquilo para o qual foi desenhado – para ser simples de usar e não gastar energia em funcionalidades acessórias. O mesmo quanto à conectividade: é 3G dual band (útil para quem viaja) e tem Bluetooth 3.0 mas… não tem Wi-Fi. Tem mesmo assim Facebook e Twitter mas é mais para desenrascar do que para usar.
Admito que a lacuna do Wi-Fi seja difícil de engolir para alguns potenciais interessados, mas imagino que a equipa da Nokia que criou o 515 tenha tido de traçar uma linha algures: vamos incluir isto, aquilo não faz sentido… E o Wi-Fi ficou do lado do que não faria sentido dado o mercado-alvo deste telemóvel.
Também o preço (em Portugal, é um exclusivo da Vodafone Negócios, que o propõe a partir de €20 ou €121 sem contrato) não me parece excessivo. A comparação com smartphones mais baratos, que oferecem mais por menos, não tem em consideração que este é um produto premium para quem menos é mais.
No final, a única queixa que encontro tem a ver com software e não com hardware: o Nokia 515 possui funcionalidade através de apps integradas para realizar backup da sua informação mas é inconcebível que a Nokia não suporte o 515 nem no Nokia Suite nem sequer no PC Suite, aplicações que para muita gente é ainda a razão para usar um Nokia. Com o PC Suite conseguimos apenas ligar o 515 no “modo modem” (o qual permite a um PC ligado ao telemóvel através de cabo ou de Bluetooth usar o modem 3G interno para aceder à Internet). É um truque giro, admito, mas sinto falta de um “modo PC Suite” completo como nos meus velhos Nokia com Symbian.

Conclusão

Desde o início que sabia que o Nokia 515 não é uma máquina para mim – estou muito satisfeito com o meu Lumia 820. A questão era saber se fazia de facto sentido para quem procura um telemóvel. E a resposta, como já devem ter percebido, é um sonoro “sim”.
Este é um telemóvel que imagino ser o ideal para muitas pessoas que conheço e que não se entendem com smartphones nem ecrãs tácteis mas querem um produto de qualidade. Essas pessoas não querem o Wi-Fi para nada e não tinham interesse em usar o PC Suite para sincronizar informação com o telemóvel, como eu fazia nos tempo do 6310i. Para elas, o Nokia 515 é simplesmente perfeito e, com o futuro da divisão de dispositivos da Nokia nas mãos da Microsoft – cujos planos passam sobretudo pela gama Lumia – este é bem capaz de ser o derradeiro telemóvel da Nokia.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Windows Phone e o “app gap“

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O chamado app gap (o “fosso” representado pelas aplicações presentes nas plataformas iOS e Android mas não em quaisquer outras) é um tema recorrente sempre que se pretende demonstrar o quanto a Microsoft ainda tem de andar até estabelecer o Windows Phone como um sistema operativo móvel credível.

Acontece contudo que, pelo menos do meu ponto de vista, nem os argumentos de um lado nem do outro me convencem – ou sequer me parecem acertados. E explico porquê.

O aplication gap já não existe?

Joe Belfiore, responsável pela equipa do Windows Phone, produziu em novembro passado um tweet famoso em que afirmava que o app gap tinha chegado ao fim (nesse tweet, Belfiore falava que o “gap” estaria fechado até ao final de 2014 mas logo depois corrigiu – ele queria dizer 2013…).

A ideia é que praticamente todas as aplicações mais desejadas pelos utilizadores – com especial destaque para o Instagram – estavam, ou iriam estar muito brevemente, disponíveis até ao final de 2013.

Reconheço que não sou um bom exemplo, uma vez que utilizo um número reduzido de aplicações e o Instagram não é uma delas, mas gostaria de discordar. Primeiro, o Instagram é um péssimo exemplo a vários níveis: a) nunca ninguém disse, durante o período em que a aplicação esteve apenas disponível para iOS, que o Android não era uma plataforma viável por causa disso; b) 6Tag, uma aplicação de Instagram para Windows Phone que é melhor que a própria app oficial, estava disponível há imenso tempo; c) a app de Instagram oficial foi lançada em beta e incompleta – e assim continua vários meses depois do seu lançamento.

Além disso, como muitos já têm salientado, o Windows Phone não tem apenas um app gap; tem também um schedule gap: as principais apps, mesmo quando acabam por chegar à plataforma, chegam muito mais tarde.

O verdadeiro app gap…

Mas para mim, o problema nem sequer é esse. Se falarmos apenas das apps principais, Belfiore tem razão: há neste momento muito pouca coisa que não esteja já disponível para Windows Phone – ou que, não estando, esteja para chegar em breve. O próprio schedule gap tem-se reduzido substancialmente nos últimos meses. Sob todos estes pontos de vista (e alguns outros mais de que não irei falar agora), o Windows Phone é de facto a “terceira plataforma” móvel – e a ganhar massa crítica todos os dias.

Acontece que, para mim, o verdadeiro app gap não é o das aplicações principais. É o de todas as outras. A foto que ilustra este artigo foi tirada no início de janeiro de 2014 num terminal rodoviário. Mostra que o operador – a Rede Nacional de Expressos – tem uma app que os seus clientes podem usar para consultar horários, trajetos e realizar reservas. Disponibilidade? Apenas para Android – a versão para iOS (mas apenas essa) está prometida para breve.

Um exemplo completamente diferente e mais recente? A app RTP 5i, acabada de lançar com pompa e circunstância e igualmente disponível para os suspeitos do costume: Android e iOS. Promoções no seu restaurante preferido? Descarregue a app para iOS ou Android. Reservas na TAP? Visita guiada ao museu X ou Y? Há uma app para isso – mas não para Windows Phone…

Mais exemplos? Acabei de chegar da DISTREE, uma feira que se realiza todos os anos no Mónaco e que junta marcas e fabricantes à procura de canais de distribução na Europa. Nela se pode tomar contacto em primeira com dispositivos que só mais tarde chegarão ao mercado; muitos deles não sobreviverão a mais um ano, mas outros acabam por se tornar extremamente populares – a câmara de ação GoPro foi mostrada num destes eventos (onde ganhou um prémio “Fresh”) antes de se tornar no sucesso que se lhe conhece.

Ora o que têm em comum muitos dos produtos mostrados na DISTREE é o facto de serem “connected devices”, desde smartwatches até sondas que enviam as necessidades de nutrientes de uma planta para o smartphone para que possa ser regada e fertilizada nas doses e momentos certos. Claro que há mais uma coisa que estes dispositivos “ligados” têm em comum: praticamente todos eles funcionam com apps para Android e iOS… E só.

São estas (milhares de) pequenas apps que, não tendo a notoriedade de um Instagram, contribuem para um verdadeiro app gap e, pior do que isso, dão os utilizadores de Windows Phone a sensação de que o seu smartphone é uma espécie de “parente pobre” do mundo da conetividade móvel. O que de certa forma, e pelo menos por enquanto, é verdade.

 

O “efeito Word” e os power users

Podemos argumentar que, na prática, nada disto é muito relevante até porque as pessoas acabam por dar uma utilização “light” aos seus smartphones. Experimente perguntar aos seus familiares e amigos que aplicações usam nos seus smartphones e a resposta seré provavelmente a mesma: usam o browser para aceder à Internet, o email, o Facebook, eventualmente o Twitter também, e tiram fotos – muitas fotos. Alguns deles terão já também descoberto que o smartphone consegue substituir perfeitamente o GPS do automóvel e a maioria usa-o igualmente para ouvir música.

Com este perfil de utilização, um Nokia Lumia com Windows Phone satisfaz não apenas todos os requisitos da maioria dos utilizadores como nalguns casos até os satisfaz melhor do que a concorrência – o Here Drive+ é considerada a melhor app de navegação GPS do género (e é grátis) e o Nokia Mix Radio faz o mesmo pela música.

Contudo, dizer que “satisfaz a maioria” dos utilizadores é o mesmo que dizer que, numa base de milhões de consumidores, muitos e muitos milhares não irão encontrar o que possuem. É o que gosto de chamar “efeito Word”, a partir do processador de texto homónimo da Microsoft: ninguém usa todas as funcionalidades do Word; contudo, o facto de elas estarem lá, significa que o produto consegue abranger virtualmente a totalidade das necessidades de toda a gente.

De resto, não é por acaso que, após anos de produtos concorrentes que até são gratuitos, milhões de utilizadores em todo o mundo continuam a preferir pagar para ter todas as funcionalidades dos produtos que constituem o Microsoft Office.

Outro problema tem a ver com os chamados power users, os utillizadores intensivos da tecnologia. É entre estes grupo que encontramos os jornalistas, bloggers ou simples entusiastas que escrevem sobre plataformas móveis. Ao contrário dos utilizadores normais, estas são pessoas que exploram os seus dispositivos ao máximo e que procuram aplicações específicas para cenários de utilização muito particulares.

No final, são eles que irão escrever os artigos (ou simplesmente aconselhar familiares e amigos) que formam a opinião de milhões de utilizadores – incluindo os que procuram conselhos sobre qual o melhor smartphone a comprar. E já sabemos o que (não) irão aconselhar.

… e o app gap ao contrário

Para utilizadores como eu, que gostam de dispositivos simples de usar e que utilizam sobretudo o email, o Facebook, o Twitter, o GPS e o leitor de música (e a câmara) do smartphone, o Windows Phone é perfeito.

Aliás, há também um app gap ao contrário. As excelentes apps da Nokia são exclusivas da plataforma e a própria Microsoft possui aplicações que não estáo (ainda) disponíveis para terceiros – desde o Office ao Halo:Spartan Assault. Para quem (já) usa o Windows 8.x no computador, há também o bónus de que a interface do PC e do smartphone é semelhante e utiliza as mesmas convenções.

No entanto, o app gap de que falei anteriormente – a dos milhares de pequenas apps e não o da meia dúzia de apps mais mediáticas – não irá fechar-se tão depressa. Joe Belfiore tem razão em dizer que se irá fechar, mas errou na data. Não só não foi em 2013 como dificilmente será em 2014.

 

Quer isto dizer que o Windows Phone nunca estará no mesmo plano dos dois líderes do mercado? Não, penso que isso irá acontecer até mais cedo do que se pensa. A visão da Microsoft dos “três ecrãs e a nuvem” que durante algum tempo não se percebia muito bem como iriia ser concretizada, tem neste momento todas as peças em jogo e, durante 2014, tudo irá contribuir para uma tempestade perfeita, com as interfaces comuns da Xbox 360/Xbox One (ecrã TV), Windows 8.1 (ecrã computador) e Windows Phone 8/8.1 (ecrã dispositivo móvel) a convergir finalmente numa forma única e integrada de interagir com o hardware e as aplicações. E a recente nomeação de Satya Nadella para CEO da Microsoft, um homem até agora responsável pela divisão cloud da empresa, só pode ser uma coisa boa.

Ao contrário de muitos, não creio que a Microsoft tenha chegado demasiado tarde à corrida das plataformas móveis de nova geração. Mas ganhar a massa crítica suficiente para fechar o app gap ainda vai demorar algum tempo mais.