terça-feira, 9 de abril de 2019

Como usar um DNS privado em Android *





À primeira vista, o Android Pie não inclui melhorias dramáticas face à versão anterior, conhecida por Oreo. Mas a “tarte” da Google inclui imensas surpresas escondidas que vale a pena explorar. Uma delas é a possibilidade de utilizarmos servidores de DNS alternativos aos que são atribuídos automaticamente pelos operadores móveis.

Alterar os servidores de DNS é algo muito fácil de fazer numa rede doméstica, quer ao nível do router, quer nos adaptadores de rede dos próprios equipamentos, mas que – até agora – era mais difícil de concretizar nos equipamentos Android. Claro que há sempre “uma app para isso” (como o Intra da própria Google), mas é bom sabermos que essa funcionalidade está disponível de origem no sistema operativo, tornando-a assim mais acessível e imediata de utilizar.

Relativamente à questão “mas para que é que isso serve?”, a possibilidade de usar DNS alternativos é muito útil a quem viaja com frequência, sobretudo para países que muitas vezes impedem o acesso a páginas que vão desde o Facebook à Wikipedia. Como na maioria dos casos estes barramentos são feitos através dos servidores DNS dos operadores, a utilização de servidores DNS alternativos resolve este problema.

Configuração de DNS privado

No Android Pie, a Google chamou a esta funcionalidade “DNS privado” (uma terminologia um pouco infeliz, uma vez que continuamos a usar servidores de DNS públicos) e, para lhe acedermos, basta abrir as Definições e escolher o grupo Rede e Internet. Na página seguinte devemos abrir o separador Avançadas, onde deverá já ver indicadas quais as definições adicionais a que vai poder aceder: Modo de Voo, VPN e DNS privado. É este último que nos interessa.



Quando se acede a esta definição pela primeira vez, deverá ver a palavra “Desativado” por baixo de “DNS privado”. Clique nesta definição para aceder ao diálogo de configuração; depois, selecione a última opção: “Nome de anfitrião do fornecedor DNS privado”.

Esta é a parte menos óbvia. É que, ao contrário do que estamos habituados, o que este diálogo nos pede não são os endereços dos servidores de DNS alternativos que pretendemos usar, mas sim, efetivamente, o nome do seu anfitrião – e temos de saber antecipadamente qual o “host” a usar e o nome a introduzir.





Três dos servidores de DNS mais populares são os da Google, Cloudflare e Quad9. A primeira utiliza os já conhecidos endereços 8.8.8.8 e 8.8.4.4. para os endereços primários e secundários dos seus servidores de DNS Públicos. Já a Cloudflare garante que, ao contrário de “outros” (numa referência pouco subtil à Google), não utiliza os seus DNS para obter dados pessoais e/ou hábitos de navegação, e promete ser o serviço mais rápido do momento, disponíveis nos endereços 1.1.1.1 e 1.0.0.1.

Finalmente, a recém-chegada Quad9, que joga igualmente a cartada da privacidade e protecção contra páginas maliciosas, que também tem o endereço fácil de memorizar: 9.9.9.9 e  (já não tanto) o 149.112.112.112.

Voltando ao diálogo das Definições do Android Pie, saber os endereços de nada serve neste caso: é necessário encontrar o nome que devemos colocar no campo respectivo. Que, para estas três entidades, são os seguintes:

  • Google: dns.google
  • Cloudflare: 1dot1dot1dot1.cloudflare-dns.com
  • Quad9: dns.quad9.net

Uma vez introduzido o nome, basta clicar em Guardar para passar a usar os servidores DNS escolhidos, e navegar no browser como o faria normalmente, mas com menores probabilidades de nos depararmos com sites bloqueados.

*Artigo publicado originalmente no blog Aberto Até de Madrugada.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Como importar pastas IMAP de um backup de Outlook *


Recentemente, a minha empresa teve necessidade de mudar de provedor de correio eletrónico. Quer com o provedor antigo, quer com o novo, as contas estavam configuradas como IMAP (por oposição a POP3) e optou-se por fazer a migração criando simplesmente cópias de segurança (ficheiros PST) a partir do Microsoft Outlook, com a intenção de mais tarde transferir a informação dessas pastas para as contas do novo provedor de serviços.

Até aqui tudo bem. A exportação de ficheiros PST a partir do Outlook é trivial e sua importação (ou simples “abertura”, o que não é a mesma coisa, mas tem o mesmo efeito prático) é igualmente simples.

Acontece que, no momento de abrirmos os ficheiros PST para repormos a informação nas novas contas de email, “caiu-nos tudo no chão”, como se costuma dizer: a informação não estava lá!
Ou estaria? Sabíamos – porque tínhamos testado os backups e certificado de que tudo estava bem – que os ficheiros estavam bons e o seu tamanho (vários GB) era também indicativo de que deviam lá ter a informação exportada. Mas a verdade é que não aparecia nada no Outlook.

Depois de muitas voltas e consulta à documentação, lá descobrimos o problema. Acontece que o Outlook, não por omissão (qualquer “bug”) mas sim por feitio (ou seja, “by design”) não mostra efetivamente as pastas IMAP em ficheiros PST. Ou melhor, não mostra com os parâmetros predefinidos. Mas é muito simples – embora pouco óbvio – alterar as definições de forma a que isso aconteça.

Para todos os que possam já ter-se confrontado (ou vir a confrontar) com este problema, aqui fica a solução.

Passo 1) Já agora, comecemos pelo princípio. Sabe como criar um backup no Outlook? É simples (mas, mais uma vez, não totalmente intuitivo): clique em Ficheiro, depois na opção Abrir e Exportar na barra azul lateral e, finalmente, no botão Importar/Exportar.


 
Passo 2) Não aceite as predefinições. O que pretende é a segunda opção, “Exportar para um ficheiro”. Clique em Seguinte e depois escolha Ficheiro de Dados do Outlook (.pst).



Passo 3) Está quase. Selecione a conta pretendida (clique mesmo no nome da conta) e certifique-se de que a opção “Incluir subpastas” está também selecionada.



Passo 4) Escolha a pasta para onde quer exportar o ficheiro. A última janela dá-lhe a opção de usar ou não uma palavra-passe.



Passo 5) Já está. Agora vamos à parte que realmente nos interessa, que é a da importação da informação que ficou no ficheiro. Pode voltar ao menu Ficheiro para abrir o ficheiro e agora escolha a opção “Abrir Ficheiro de Dados do Outlook”.




Passo 6) Navegue até ao local onde gravou o PST e abra-o. Não se assuste ao descobrir que não está lá a informação que era suposto estar. Clique em Ficheiro de Dados do Outlook (o ficheiro que acabou de abrir) e, em baixo, clique em “…” e depois em Pastas.



Passo 7) Depois, identifique a pasta IMAP de raiz; provavelmente será Caixa de Entrada, Inbox ou similar. Depois (mas só depois!), clique no separador Ver, na opção Alterar Vista (a primeira do lado esquerdo), Mensagens IMAP (idem) e, finalmente, “Aplicar Vista Atual a Outras Pastas de Correio”. E voilá! Todas as pastas da estrutura original surgem visíveis no ficheiro PST.




Caso pretenda, pode simplesmente copiar-e-colar as mensagens das pastas deste ficheiro PST para os novos locais de outra(s) conta(s) que tenha entretanto criado e configurado no seu Outlook.

Passo 8) No final, não se esqueça de “fechar” o ficheiro de dados que abriu. Caso contrário, o Outlook tentará sempre abri-lo cada vez que iniciar o programa. Para isso, clique em Ficheiro de Dados do Outlook com o botão direito do rato e selecione a opção respetiva.





 * Artigo publicado originalmente no site Pplware.

quinta-feira, 29 de março de 2018

Facebook: o cliente é o produto *

A propósito do “escândalo” da partilha pelo Facebook de dados pessoais dos utilizadores, vale a pena irmos um pouco mais longe e perceber, muito provavelmente, que o verdadeiro problema… somos nós.

 
Por esta altura, quem lê estas linhas já deve estar a par das últimas notícias sobre o Facebook, relativamente à partilha de dados pessoais com uma empresa que os terá usado, entre outras coisas, para tentar interferir nos resultados das últimas eleições nos EUA. 

Não é exatamente sobre isso que pretendo escrever. Para se colocar a par do que se passou pode espreitar aqui. Mas leia também este artigo, do final de 2017, para perceber que nada disto é absolutamente novo. 

O que se passa é que vender os nossos dados pessoais é o negócio do Facebook – desde sempre. O “escândalo” de que se fala não se prende nem com algum “hack” (acesso não autorizado aos dados, feito através de alguma brecha de segurança) nem com o facto de o Facebook recolher os nossos dados (algo que consentimos explicitamente ao criarmos uma conta nesta rede social).

A “breach” (“brecha”, à letra) de que os media têm falado é, na realidade uma “breach of confidence”. O que foi quebrada não foi a segurança do sistema informático (embora isso possa ter acontecido anteriormente e noutras circunstâncias); o que foi quebrada foi a “confiança” que o Facebook tinha depositado em quem tinha garantido que não iria usar os dados para os efeitos que efetivamente usou e que os apagaria quando tal lhe foi pedido.

E claro que houve outra coisa que foi quebrada (e que agora Mark Zuckberg se apressa a tentar emendar): a confiança entre o Facebook e os seus utilizadores.

O cliente ou o produto

Mas vamos voltar aos que nos interessa. Como é que chegámos aqui? Bem, na realidade, a culpa de tudo isto é… nossa. E quando digo “nossa” digo que é minha, sua, de todos em geral e de ninguém em particular.

Porquê? Simples: porque nesta economia digital em que vivemos, ninguém quer pagar por nada. E como as coisas não são grátis (quanto é que pensa que custa manter e gerir a infraestrutura de TI necessária a manter o Facebook em funcionamento 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias do ano?), o pagamento em vez de ser feito diretamente – através de uma taxa de subscrição, por exemplo – é feito de forma indireta. Que, neste caso, significa “pagar” através do valor representado pelos nossos dados.

Na prática, também não tem de se preocupar demasiado, porque o Facebook e os seus clientes (não, o cliente não é você!, já lá irei) não querem tanto saber o nosso nome, morada e telefone, mas sim quais as nossas preferências e o nosso perfil demográfico – idade, género, profissão, preferências, área geográfica, escalão remuneratório...

Só para os mais distraídos é que isto é novidade. Há um velho adágio que diz que «na economia digital, se não és o cliente, és o produto». Isto, na melhor das hipóteses, porque por vezes somos ambos ao mesmo tempo!

Ora nós, utilizadores de redes sociais (e motores de busca, e sistemas de webmail, e de comércio eletrónico, e…) somos definitivamente o produto. O cliente, para o Facebook, são os seus anunciantes, os quais beneficiam do facto de o Facebook saber quem somos e do que gostamos, de forma a oferecer o melhor retorno possível face ao investimento em publicidade.

Na maioria dos casos, isso até beneficia os utilizadores – não prefere ver anúncios relevantes para si em vez de ser bombardeado, como na TV, com mensagens que não lhe interessam? É essa a principal diferença entre a publicidade veiculada pelos “velhos media” face à que nos é oferecida pelos canais digitais.

E a culpa é…

Mas voltemos à “vaca fria”. De quem é a culpa disto tudo? É fácil apontar o dedo ao Facebook, que efetivamente traiu a confiança de (tanto quanto se sabe) 50 milhões dos seus cerca de dois mil milhões de utilizadores. E sim, devemos preocupar-nos com isto e exigir, tanto quanto possível, que nada disto volte a acontecer.

Mas o problema com as redes sociais é que funcionam tanto melhor quanto mais de nós partilhamos com os outros. E somos nós que começamos por dar de mão beijada ao Facebook todos os dados que a empresa depois usa – idealmente para fins legais e legítimos.

Até podemos criar um perfil falso com um nome inventado e uma foto roubada de uma pesquisa do Google. Mas o Facebook não se importa. O que o Facebook pretende – e é isso que tem valor – é saber que a pessoa atrás desse perfil (mesmo que inventado!) tem preferência por determinadas marcas, certas inclinações políticas, gosta das marcas a, b ou c, etc. No final do dia, essa “pessoa”, seja ela real ou inventada por si, irá mesmo consumir ou adquirir algo e, para o Facebook e os seus clientes, é isso que interessa. É isso que tem valor.

Podemos ter uma conta no Facebook e evitar a recolha de dados sobre nós? Sim, se deixarmos de “gostar” de páginas, de fazer “likes” em posts de amigos e conhecidos, de responder a outros, se deixarmos de usar o Messenger, de criar (e ir a) eventos, se evitarmos responder a sondagens e “passatempos”, se não jogarmos... Ou seja: é possível ter uma conta no FB e evitar a recolha de dados se... praticamente não usarmos a conta para nada.

[veja o final deste artigo para saber o que pode realmente fazer para minimizar o que o Facebook sabe sobre si]

Porque a alternativa é... Bem, neste momento, alternativa ao Facebook não existe sequer. A “alternativa” é mesmo apagar a conta, caso estejamos a sentirmo-nos desconfortáveis sabendo aquilo que já devíamos saber, que é a inevitabilidade da recolha, tratamento e partilha de dados do Facebook com terceiros – sejam esses terceiros os seus anunciantes ou empresas de perfil duvidoso e intenções pouco transparentes.

No fundo, a alternativa a estar no Facebook desta forma é uma e só uma: pagar para usar. E ponha o dedo no ar quem gostaria de optar por essa opção... se existisse sequer.

E aqui temos outro problema: quanto custaria pagar por aquilo que agora é financiado pela publicidade, a qual por sua vez é paga ao Facebook por anunciantes que tiram partido do quanto a rede social sabe sobre nós? Muito mais do que pensa. Conheço uma empresa portuguesa que possui um website de elevado tráfego “pago” com banners de publicidade geridos pela Google. Ela já fez as contas e concluiu que mesmo cobrasse a todos os visitantes (ou até mesmo apenas uma parte deles) uma pequena taxa anual para acesso ao site sem publicidade ia perder dinheiro. E muito.

Não quero ser chato e concluir dizendo que não há nada fazer. Haver há, começando por efetivamente usar os controlos de privacidade do Facebook e evitando partilhar o que não queremos mesmo partilhar.

Mas já agora, não tranquem a porta deixando as janelas abertas: então e a Google? Ou ainda não perceberam o que significa estarem “logged in” para poderem aceder aos vossos “Favoritos” no Chrome em qualquer dispositivo? Ou manterem a conta do Gmail ligada enquanto fazem pesquisas? Ah, e ainda não perceberam também que o conteúdo do que têm no Gmail é usado para “targeting ads”?

Não se esqueçam, de passagem, de cancelar também as contas de Netflix, do Spotify e, de passagem, desligarem o “modo inteligente” da set-top box que o vosso ISP lá pôs em casa para verem TV de forma “personalizada”. Fazer compras na Amazon? Esqueçam lá isso. Cartões dos supermercados? Nem pensar! E quanto ao acesso WiFi grátis que uma conhecida rede de cinemas em Portugal irá disponibilizar aos seus clientes, é melhor pensar duas vezes no que significa “grátis”…

A única forma de evitarmos tudo isto é ficarmos “off grid” e irmos viver nas montanhas – mas sem rede celular, claro! Como isso não me parece muito prático, o melhor mesmo é ir usando bom senso, partilhar só o que faz sentido, usar os serviços “grátis” de forma regrada e, sempre que possível, optar por serviços equivalentes, mas pagos.

Porque, repitam depois de mim, “se não somos o cliente, somos o produto”. Sempre.

O que fazer para se proteger

Facebook.
Não é preciso deixar o Facebook para usar a rede social de forma mais segura. Aponte o browser para https://www.facebook.com/safety/tools e altere as definições da sua conta.
Evite usar a conta do Facebook para se registar noutros serviços – só irá facilitar a partilha dos dados com terceiros…

Google.
Aproveite o balanço e faça o mesmo com o Google. Em https://privacy.google.com/take-control.html encontra ferramentas que lhe permitem limitar a forma como o Google recolhe e partilha a sua informação.
Evite usar o motor de pesquisa Google quando está ligado como uma conta Gmail, uma vez que a pesquisa que realizou vai ficar associada à sua conta. O mesmo acontece com uma conta Outlook.com ou Live.com quando usa o Bing. Se é mesmo paranoico, passe a usar um motor de busca como o DuckDuckGo.com, que não recolhe dados pessoais.

Browsers.
O seu browser possui uma opção chamada “Do Not Track” (https://en.wikipedia.org/wiki/Do_Not_Track). O mais provável é estar desligada. Ative-a de forma a limitar os dados partilhados pelo seu browser com os sites que visita. Veja como no Chrome (https://support.google.com/chrome/answer/2790761), Edge e IE (www.online-tech-tips.com/internet-explorer-tips/send-do-not-track-and-enable-tracking-protection-in-ie-11-edge) e Firefox (https://support.mozilla.org/pt-PT/kb/como-ativar-funcionalidade-nao-monitorizar-do-not-track).
Os browsers têm também modos “seguros” de navegar. O problema é que estes modos (que, entre outras coisas, desligam os “cookies”) por vezes resultam numa experiência de navegação medíocre, porque estamos a negar aos sites informação básica que eles por vezes necessitam para personalizar a nossa experiência…

Email.
Use contas de email “descartáveis” para se registar em sítios onde tem dúvidas sobre o destino dos seus dados pessoais. Crie uma conta alternativa no Google, Yahoo!, Outlook.com ou Mail.com (ou outro do seu agrado) e use-a para esse efeito.

Pague.
Alguns serviços (e jogos) são do tipo “freemium” – ou seja, têm uma versão grátis (“free”) e outra premium. Mas se em muitos casos esta dicotomia se prende com as funcionalidades disponíveis em cada um dos modos, noutros a parte grátis é simplesmente paga com a exibição de publicidade – se não a quer ver, pague para aceder à versão premium.

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* Artigo publicado originalmente no Wintech

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O futuro do Facebook? Comércio eletrónico *



Desde a sua OPV (IPO) inicial que o Facebook tem sabido suplantar todos os obstáculos: como sustentar o crescimento perante o advento de outras redes sociais?, como aumentar as receitas de publicidade em face do crescimento dos acessos online?, como manter os seus utilizadores satisfeitos mesmo perante uma aparente multiplicidade de redes sociais…?

A todos estes desafios, o Facebook soube dar resposta reinventando-se quando foi preciso, mudando a estratégia perante alterações no mercado e, sim, comprando a concorrência e integrando-a no seu plano de negócios quando tal se mostrou necessário.

Os resultados financeiros apresentados no final de Julho mostram uma empresa capaz de bater todas as mais otimistas expectativas por parte dos investidores, que se ri perante as notícias que dizem que os seus utilizadores estão a desertar para outras plataformas – neste momento tem 1.700 milhões de utilizadores mensais ativos, mais coisa menos coisa – e que parece imparável.

Para os mais distraídos, o Facebook não se limitou a destruir o Hi Five e o MySpace – a própria Google nada pode fazer e o Google Plus, que muitos garantiam ser uma ameaça real à empresa de Mark Zuckerberg, foi totalmente repensado e reposicionado para poder sobreviver. Lembram-se do MSN, o Messenger da Microsoft que toda a gente usava… até surgir o Facebook? Foi-se. O Instagram podia ser uma ameaça? Comprado. O WhatsApp tem potencial? Já é nosso…

Entretanto, o Facebook tornou-se numa plataforma sem a qual deixámos de poder funcionar online. Usamos a nossa conta do Facebook para fazer comentários em websites; para fazer login em serviços online (e apps como o Tinder!); para falar com amigos através do Messenger; para acedermos a notícias; para programar eventos; para partilhar fotos de cãezinhos, de gatinhos, de comida (claro!), da banda preferida que fomos ver ontem à noite; para dizer a toda a gente que andámos esta manhã 10 quilómetros em não-sei-quantos-minutos… Façamos um teste: quantos dos seus familiares e amigos não usam o Facebook, direta ou indiretamente? Aposto que são bem menos do que aqueles que usam…

O futuro do Facebook
Podemos desculpar quem pensa que o Facebook já esticou a corda até onde pode e que, a partir daqui, será só a descer. Mas julgo que, pelo contrário, Zuckerberg e companhia ainda estão só a aquecer.

O Facebook que descrevi acima é o Facebook dos 1,7 mil milhões de utilizadores individuais. Mas o Facebook que gera dinheiro é uma conjugação desses utilizadores com os investimentos publicitários das empresas que apostam no Facebook.

É possível fazer campanhas de publicidade no Facebook a partir de 1 euro por dia até muitos milhões por ano. O Facebook ganha dinheiro através da promoção (paga) que as empresas fazem dos seus posts mas também de campanhas específicas – são esses os anúncios que aparecem nas nossas timelines (desktop e dispositivos móveis) e na barra do lado direito (desktop).

De certa forma, Zuckerberg sabe que há um limite para a quantidade de publicidade que o Facebook nos pode impingir – e os ad blockers são uma ameaça real. Por onde passa então o futuro do Facebook?, como irá a empresa continuar a fazer crescer as receitas? Sem querer fazer futurologia (mas colocando a cabeça no cepo e fazendo! J), penso que a resposta a essa questão são duas palavras: “comércio eletrónico”.

Vender no Facebook


Sim, hoje já é possível vender no Facebook, mas o processo não é simples. Requer apps de terceiros (como o Shopify ou o Bigcommerce) e pagamentos de fees mensais quer vendamos ou não. Não é fácil e não é barato. E por isso não vemos muitas páginas no Facebook a vender o que quer que seja.
Acontece que o Facebook quer tornar o comércio eletrónico para as empresas através da rede social tão simples como anunciar – mas com uma dupla vantagem: é uma nova (e potencialmente enorme) fonte de receita e, ao mesmo tempo, não cria entropia adicional para os utilizadores individuais.
Tal como acontece sempre que surge com algo de novo, o Facebook está a implementar esta funcionalidade de forma gradual. No entanto, não duvido por um momento que, parafraseando a conhecida frase publicitária, “é para avançar”…

O modelo de negócio está já explicado nas páginas de ajuda da rede social (aqui) e funciona de forma muito simples: a loja passa a estar acessível através de mais um separador na página da empresa sem necessidade de apps adicionais nem programação. Além disso, e ao contrário de soluções de terceiros – que bem podem dizer adeus ao negócio… – o Facebook não cobra nem pela criação nem pela manutenção da loja.

As receitas do negócio são feitas simplesmente através da cobrança de uma (pequena) taxa de transação, uma vez que um dos requisitos é que o vendedor opte pelo sistema de pagamentos da Stripe, empresa com quem o Facebook criou uma parceria em 2014.

O potencial de abertura das páginas de empresas ao comércio eletrónico é incalculável, mas imagino que será até mais interessante para pequenos negócios do que grandes marcas – estas têm os seus próprios canais de distribuição e usam o Facebook como forma de contacto com os seus fãs e nunca colocarão em causa a forma como têm o seu negócio organizado.

Contudo, estima-se neste momento que existem cerca de 50 milhões de páginas de Facebook de “pequenos negócios” e mesmo que apenas uma fração esteja interessada em vender através da rede social, é bom lembrarmo-nos que uma plataforma de e-commerce dedicada como a Etsy tem “apenas” 1,6 milhões de vendedores, um número mais do que suficiente para tornar a empresa num sucesso.

O potencial da entrada do comércio eletrónico no Facebook é tremendo e vai ser preciso uma conjugação especialmente desfavorável de fatores para que o que aí vem não seja absolutamente avassalador.

Portanto, aqui têm os meus dois cêntimos sobre o futuro da empresa de Mark Zuckerberg: preparem-se, porque o melhor ainda está para vir.


* Artigo publicado originalmente pelo autor em https://pplware.sapo.pt/informacao/opiniao/o-futuro-do-facebook-comrcio-electrnico/

sábado, 30 de julho de 2016

O melhor smartphone para jogar Pokémon Go

A menos que tenha vivido nas últimas semanas numa caverna ou tenha estado emigrado noutro planeta, é difícil não saber que o Pokémon Go é o jogo para dispositivos móveis mais popular de sempre.

Por isso este post não é sobre o Pokémon Go mas sobre uma questão não menos importante: caso ainda não possua máquina para correr o jogo, qual o smartphone que deverá comprar?

Para limitar de alguma forma o imenso universo de dispositivos por onde escolher, restringi a busca a máquinas com um valor igual ou inferior a 200€ – ou que, pelo menos, seja possível adquirir em Portugal abaixo desse valor, em loja ou online.

Ao contrário do que eu próprio imaginava quando encetei a busca (não me julguem, vá...), não encontrei muitas que ficassem dentro dos critérios que eu próprio defini. Nem sequer meia-dúzia. Na verdade... encontrei UMA!

Para quem não quer ler o resto do post, a máquina que selecionei (e acabei por comprar) é o BQ Aquaris X5, que embora tenha um preço oficial de 230 euros pode ser adquirido através da Amazon Espanha (desbloqueado, claro) por 180 euros + portes.

* * *

A busca pelo smartphone Android perfeito (e não excessivamente caro) para correr Pokémon Go provou ser mais complicada do que encontrar um Pikachu. O problema prende-se com as especificações do jogo, surpreendentemente exigentes, facto que não é absolutamente claro quando fazemos uma busca rápida pela web.

Por exemplo, no site oficial do jogo, a lista de equipamentos suportados não parece muito problemática, antes pelo contrário: ecrã com resolução 1280x720 (coisa mais do que banal nos tempos que correm); Android 4.4 ou superior (idem); uma boa ligação à Internet; e GPS. Simples, certo? Bem... Não. Sobretudo por causa dos dispositivos que não são suportados: a maioria dos tablets (mesmo que tenham a versão Android necessária), todos os smartphones baseados em processadores Intel (sim, como o Asus ZenPhone 2) e... smartphones com menos de 2 GB. Pois.

Acontece que para sabermos a limitação dos 2GB já temos de ir a outra página, à da app no Google Play. Onde descobrimos também que "a aplicação poderá não correr em determinados dispositivos, mesmo que estejam equipados com uma versão compatível do sistema operativo". Quais...? Não sabemos, mas o maravilhoso mundo das interwebs dá-nos uma ajuda

Já smartphones com processadores da Mediatek, muito embora ofereçam tipicamente menor desempenho que os mais conhecidos Qualcomm Snapdragon, parecem não ter problemas de compatibilidade. No entanto, é bom manter presente que este é um jogo exigente em termos de hardware e que quanto mais potente for a máquina eu usemos, melhor será a experiência de jogo.

* * *

O que nos traz ao elefante na sala: o giroscópio. "Mas António", ouço-vos perguntar, "hoje em dia todos os smartphones têm giroscópio!" Pois, também eu pensava. Mas a resposta surpreendente é que a maioria dos smartphones, mesmo os de gama média, não inclui giroscópio!

Ora, em rigor, a verdade é que não é necessário giroscópio para correr o Pokémon Go, muito embora eu ache inacreditável que nenhum recurso oficial mencione esta particularidade. Mas já ouviram dizer que o Pokémon Go é um jogo de realidade aumentada, certo? Ora sem giroscópio o jogo funciona, mas sem a componente de realidade aumentada. O que significa que a minha filha mais nova, em vez de ter encontrado um Pikachu logo no primeiro dia, em cima dos pastéis de nata do balcão da pastelaria Didu, tê-lo-ia simplesmente apanhado sobre um fundo verde. E todos nós sabemos que não há nada como um pastel de nata da Didu... :-)

But I digress... Ia eu a dizer que o facto de um smartphone não ter giroscópio não é crucial para correr o jogo. Mas para quem não tem um terminal compatível com o Pokémon Go e quer tirar o máximo partido da aplicação, penso que é algo que vale a pena.


* * *

Voltamos então ao princípio: não encontrei * no mercado nenhum smartphone por menos de 200 euros (que era o meu limite) que respeitasse todos os requisitos mínimos para jogar Pokémon Go, tivesse processador Snapdragon (não é fundamental, mas jogo é muito exigente em termos de hardware e tradicionalmente as máquinas baseados em processadores MediaTek tendem a não ter muitas atualizações do sistema operativo) e que também incorporasse um giroscópio entre os seus sensores.

Ou melhor, encontrei uma: o BQ Aquaris X5. Como escrevi no início, o preço oficial é de 230 euros,
mas pode ser adquirido através da Amazon Espanha (desbloqueado, claro) por 180 euros + portes. E posso também garantir que a máquina é fantástica e corre o Pokémon Go sem quaisquer problemas. Aliás, aproveitei e comprei também uma capa, que as crianças costumam ter dedos de manteiga...


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"E se o meu orçamento for mais para os 100 euros do que para os 200€?" Sim, é possível jogar Pokémon Go num smartphone mais barato (desde que nos contentemos com um processador MediaTek e não exijamos que tenha giroscópio integrado). Uma possibilidade, que o website Eurogamer.net garante que funciona bem, é o Oukitel K4000 (pois, também nunca ouvi falar). Por 109€ na Amazon.es, este aparenta ser um bom negócio.


Notas finais

1. O Aquaris X5 que eu comprei na Amazon.es há duas semanas por 179,90 era novo, mas reparo agora que o preço se alterou e por esse valor só "recondicionado oficial". Novo custa agora (à data original deste post) 199 euros.

2. Caso tenha feedback deste post e surjam outras alternativas, irei mantendo aqui uma lista de dispositivos (sempre abaixo dos 200€!, por favor) compatíveis.

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