sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A síndrome do "good enough"

Estava a guardar este post para mais tarde, mas um artigo que acabei de ler sobre a falta de entusiasmo pelos leitores de Blu-ray levou-me a antecipar a escrita. É a típica situação que eu costumo apelidar da "síndrome do good enough".


A ideia é esta: sobretudo no que diz respeito a tecnologias (informática, electrónica de consumo...), quando algo é "suficientemente bom" (good enough) é difícil convencer os consumidores a optarem por algo que é melhor mas que, em termos de percepção, não é suficientemente melhor para que valha a pena o trabalho (e/ou a despesa) de mudar.

Basicamente, é este o problema que a Microsoft tem hoje com o Windows Vista. O sistema operativo é de facto melhor do que o Windows XP (pelo menos para quem se dê ao trabalho de comparar) mas, para a maioria das pessoas, não é suficientemente melhor para que valha a pena mudar.

O que, fazendo algum sentido, não deixa de ser irónico tendo em atenção as críticas que o Windows XP recebeu praticamente desde que foi lançado, sobretudo em áreas como a da segurança (onde o Vista é claramente superior).

Isto é algo que acontece de vez em quando na informática mas que é muito mais visível na electrónica de consumo. Por exemplo, desde que foi lançado, no início dos anos 80, que tem havido tentativas de melhorar o som do CD Áudio. Tecnologias como o HDCD (curiosamente, hoje na posse da Microsoft, que a adquiriu no final dos anos 90), o Super Áudio CD ou o DVD-Áudio simplesmente falharam. Porquê? Porque para 99,9% dos consumidores, o som proveniente do CD Áudio é... good enough.

Mas o que é pior ainda é que, provavelmente para os mesmo mais de 90% dos consumidores, até algo pior do que o CD Áudio, como é o caso da música comprimida em MP3 (ou WMA, o que vai a dar ao mesmo) também é good enough. Aliás, essa é a tragédia da indústria musical: se os consumidores notassem a diferença de qualidade do som (ou, notando, se a considerassem relevante) o problema da pirataria não seria o que é hoje.

Com o vídeo está a passar-se o mesmo. Enquanto que os consumidores viram claramente a vantagem do salto da cassete VHS para o disco DVD (tal como tinham visto com a passagem da cassete áudio e do LP para o CD), o mesmo já não acontece com a passagem do DVD para o Blu-ray.

Contudo, ao contrário do áudio, creio que no vídeo, o Blu-ray acabará por vencer o DVD - embora levando mais tempo do que a indústria gostaria. E a razão é simples: a diferença entre o DVD e o Blu-ray é tanto maior quanto maior for a diagonal do ecrã. Ora a maioria dos consumidores ainda tem ecrãs de 32'' ou menores. À medida a que os ecrãs forem trocados por modelos de maiores dimensões (e é essa a tendência), as diferenças tornar-se-ão mais notórias.

Até lá, o DVD (tal como o Windows XP) é, para a maioria, good enough.

1 comentário:

pjorgenunes disse...

Concordo em absoluto. Por vezes a industria acaba por estar a tentar "forçar" o consumidor a aderir a determinada tecnologia. Mas mais influência menos influência que "manda" ainda é o consumidor :).